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Pesquisa identifica munições do Exército em apreensões ligadas ao Comando Vermelho

Estudo do Instituto Sou da Paz analisou mais de 31 mil cartuchos de fuzil em 29 casos no país

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reprodução

Uma pesquisa do Instituto Sou da Paz identificou munições de fuzil adquiridas pelo Exército Brasileiro entre os cartuchos apreendidos em operações contra o Comando Vermelho. Revelado pelo Fantástico, o levantamento analisou registros de mais de 31 mil munições intactas em 29 casos de diferentes estados.

Nos episódios examinados, quatro em cada dez cartuchos apreendidos com integrantes da facção eram de fabricação nacional. Também foram encontradas munições produzidas pouco antes das apreensões. A partir de laudos periciais e processos judiciais, os pesquisadores identificaram indícios de desvios e falhas no rastreamento do material.

Lotes de órgãos públicos aparecem em apreensões

O estudo apontou que parte dos cartuchos usados por criminosos para atacar policiais durante a megaoperação no Rio de Janeiro, em 2025, pertencia às próprias forças de segurança.

Em outro caso, uma carga de 1.804 cartuchos foi interceptada no Distrito Federal, em 2019, a caminho do Rio. Havia munições de lotes do Exército, das polícias militares do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, do Fundo Estadual de Segurança de Mato Grosso e do Ministério da Justiça.

Segundo o instituto, lotes identificados nessa carga já haviam aparecido em outras apreensões. Para o consultor Bruno Langeani, a recorrência indica uma rede de desvios que ainda não foi completamente desarticulada.

Falhas dificultam rastreamento

Há cerca de 20 anos, munições nacionais adquiridas pelas forças de segurança recebem códigos de rastreabilidade. A identificação permite localizar o comprador original, mas nem sempre esclarecer os repasses posteriores e o caminho até o crime organizado.

Uma ocorrência em Fortaleza, em janeiro de 2025, expôs essas dificuldades. Policiais penais da inteligência que investigavam um plano do Comando Vermelho para resgatar presos foram surpreendidos por homens armados. Um agente morreu e outro ficou ferido. Quatro acusados vão a júri popular.

Na ocorrência, foram apreendidos 400 cartuchos de fuzil. Segundo o Sou da Paz, fotos mostravam caixas com embalagens originais de munição brasileira, mas essas informações não foram incluídas no inquérito, inviabilizando uma tentativa de rastreamento com base nos registros disponíveis.

O instituto defende a divulgação dos códigos que identificam os compradores e o aprimoramento do controle sobre a distribuição. “A sociedade tem direito de saber o que está sendo feito com uma munição que foi comprada com recurso público”, afirmou Langeani.

O que dizem os órgãos citados

O Exército afirmou reconhecer a gravidade dos casos de extravio ou furto e não compactuar com desvios de conduta. Informou ainda que revisa os procedimentos de controle e abre investigações diante de indícios de irregularidades, para recuperar o material e responsabilizar os envolvidos.

A Polícia Militar do Distrito Federal declarou ter aprimorado os protocolos de controle, armazenamento e carga de munições.

Já o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que combater o desvio de armas e munições legais para o mercado ilegal é uma prioridade da política de controle retomada em 2023. A pasta informou que continuará aperfeiçoando os mecanismos de identificação da origem do material que chega ao crime organizado.