O que uma eleição nos Estados Unidos tem a ver com o preço do dólar, com os produtos que compramos ou com os empregos aqui no Brasil? A resposta pode começar a ser desenhada nesta terça-feira (3), quando os americanos vão às urnas. E, desta vez, Donald Trump não é candidato.
São as chamadas midterms, eleições de meio de mandato que podem mudar o equilíbrio de forças no Congresso americano e, consequentemente, a capacidade do presidente de colocar seus projetos em prática. Trump continuará na Casa Branca, independentemente do resultado. O que pode mudar é a facilidade que terá para governar nos próximos dois anos.
Para explicar esse processo e seus possíveis reflexos no Brasil, o Portal de Notícias Manchete ouviu Cícero Pimenteira, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Os dois concordam que uma eventual derrota do Partido Republicano pode aumentar a fiscalização sobre o governo Trump. Mas há uma diferença importante entre as análises: enquanto Pimenteira destaca a possibilidade de um Congresso mais independente conter decisões presidenciais, Velasco alerta que uma mudança de maioria não garante o fim das pressões comerciais sobre o Brasil.
Afinal, o que são as midterms?
Imagine que, no meio do mandato de um presidente, os eleitores possam mudar a composição do Congresso. É isso que acontece nos Estados Unidos a cada dois anos.
O país tem um Congresso formado por duas Casas, assim como o Brasil: a Câmara dos Representantes, equivalente à nossa Câmara dos Deputados, e o Senado.
A diferença está nas regras eleitorais. Nos Estados Unidos, os deputados têm mandatos de apenas dois anos. Por isso, todas as 435 cadeiras da Câmara estarão em disputa nesta terça-feira.
No Senado, a situação é diferente. São 100 senadores, dois por estado, com mandatos de seis anos. Como a renovação é feita de maneira alternada, aproximadamente um terço das vagas entra em disputa a cada dois anos. Em 2026, serão 35 cadeiras: 33 eleições regulares e duas especiais.
Para comparar, no Brasil, deputados federais têm mandatos de quatro anos e senadores, de oito. As eleições legislativas federais acontecem junto com as presidenciais, a cada quatro anos.
Nos Estados Unidos, os eleitores também escolherão governadores e outros representantes estaduais e locais, conforme as regras de cada região.
De acordo com o portal oficial do governo americano, USA.gov, as eleições legislativas determinam quem representará cada estado no Congresso e qual partido terá maioria em cada Casa durante os dois anos seguintes.
Para Cícero Pimenteira, essa frequência permite que os eleitores avaliem mais rapidamente o trabalho de seus representantes.
“Votar no meio do mandato para congressistas americanos, deputados e senadores é uma forma do povo, num curto espaço de tempo, poder verificar se aquele deputado e aquele senador cumpriram com as suas promessas, com as suas tarefas legislativas”, explica.
O professor observa que as eleições também permitem aos americanos manifestar satisfação ou descontentamento com o governo, mesmo sem escolher um novo presidente.
Democratas ou republicanos: qual resultado é melhor para Trump?
Antes de acompanhar a apuração, vale entender quem é quem nessa disputa. Donald Trump pertence ao Partido Republicano, identificado pela cor vermelha. Seu principal adversário é o Partido Democrata, representado pela cor azul.
Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas do Congresso. Por isso, o resultado mais favorável para Trump seria manter a maioria tanto na Câmara quanto no Senado. Isso não significa que todas as suas propostas seriam aprovadas, mas facilitaria as negociações com os parlamentares.
Na Câmara dos Representantes, são 435 cadeiras. Para conquistar uma maioria absoluta, um partido precisa eleger pelo menos 218 deputados. Como todas as vagas estão em disputa, republicanos e democratas terão de conquistar o apoio dos eleitores em centenas de distritos espalhados pelo país.
Já no Senado, que possui 100 integrantes, o cenário é diferente. Apenas 35 cadeiras estarão em disputa nesta eleição. Os republicanos chegam à votação com 53 senadores, enquanto os democratas têm 45, além de dois independentes que costumam votar com eles. Para conquistar a maioria, os democratas precisam obter um ganho líquido de quatro cadeiras.
Mas o que acontece se Trump perder?
Se os democratas conquistarem apenas a Câmara, poderão ampliar a fiscalização sobre o governo, conduzir investigações e dificultar a aprovação de projetos e propostas orçamentárias.
Se conquistarem também o Senado, poderão exercer maior influência sobre a análise de indicações presidenciais e sobre a tramitação de propostas legislativas.
E se os republicanos mantiverem as duas Casas? Trump preservará uma situação politicamente mais favorável, embora continue dependendo de negociações internas e das regras específicas de votação.
Há ainda um detalhe importante: nem todas as decisões no Senado são tomadas por maioria simples. Para superar determinados obstáculos regimentais, como o bloqueio de debates legislativos, geralmente são necessários 60 votos.
Portanto, ganhar uma eleição não significa ter liberdade para fazer tudo. Mas controlar o Congresso pode facilitar – ou dificultar bastante – a vida de um presidente.
O que está em jogo para Donald Trump?
Para entender a preocupação de Trump com essas eleições, basta pensar no Congresso como uma instituição que pode apoiar ou dificultar os planos do presidente.
Paulo Velasco explica que a perda de apoio parlamentar é relativamente comum nas eleições de meio de mandato.
“É comum, bastante comum na verdade, o presidente ter dificuldades para manter a maioria nas casas legislativas, quando tem essas eleições de meio de mandato”, afirma.
Segundo o especialista, uma derrota pode ampliar as dificuldades do governo, especialmente na aprovação de leis, nas discussões sobre o orçamento e na fiscalização das decisões presidenciais.
Cícero Pimenteira usa uma expressão da política americana para ilustrar esse enfraquecimento: lame duck, que, traduzida literalmente, significa “pato manco”.
“Esse pato manco representa a figura de uma pessoa que está eleita, que está no cargo, mas que não governa mais com tantas liberdades quanto tinha na primeira metade do governo”, explica.
O termo é usado para descrever situações de perda de influência política, embora não signifique que o presidente deixe de exercer seus poderes constitucionais.
Pimenteira ressalta que Trump poderá continuar governando mesmo sem maioria no Congresso. A diferença estará na necessidade de negociar.
“As negociações se tornam mais duras. As trocas políticas se tornam mais pesadas para aquele governante”, avalia.
Na prática, uma oposição fortalecida pode ampliar investigações parlamentares, convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos e dificultar a aprovação de projetos.
A Câmara dos Representantes também pode aprovar acusações em um processo de impeachment. Entretanto, a destituição de um presidente exige o voto de dois terços dos senadores, uma maioria muito mais difícil de alcançar.
O que os americanos querem mudar?
Embora as decisões de Trump provoquem repercussões internacionais, a eleição também será decidida por preocupações bastante próximas das que fazem parte do cotidiano brasileiro: custo de vida, emprego, inflação e preços dos combustíveis.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta segunda-feira (2) apontou aprovação de 32% ao desempenho do presidente americano.
No levantamento, 46% dos eleitores registrados disseram preferir candidatos democratas para o Congresso, contra 38% que escolheriam republicanos. A diferença de oito pontos percentuais indica vantagem democrata no cenário nacional, mas não garante vitória nas disputas locais.
Isso acontece porque os americanos não votam em uma lista nacional única para o Congresso. Cada estado e cada distrito eleitoral tem seus próprios candidatos e resultados.
A avaliação dos eleitores sobre a economia é uma das questões que podem influenciar essas escolhas.
Cícero Pimenteira considera que os problemas internos tendem a pesar mais no voto do cidadão comum do que os conflitos internacionais.
“O americano médio, ele se preocupa muito mais com questões internas, como custo de vida, acesso ao trabalho, emprego, boas condições sociais”, afirma.
Na avaliação do professor, as eleições funcionam como uma oportunidade de cobrar resultados do governo e dos parlamentares.
E o Brasil com isso?
É aqui que a eleição americana deixa de parecer um assunto distante.
Os Estados Unidos são um importante parceiro comercial do Brasil. Empresas brasileiras vendem produtos para o mercado americano e também compram máquinas, equipamentos, componentes e outros bens produzidos naquele país.
Quando Washington altera tarifas de importação ou adota medidas que dificultam o comércio, empresas exportadoras podem perder competitividade. Isso pode afetar produção, investimentos e empregos em setores específicos.
O câmbio também merece atenção. Como muitas transações internacionais são realizadas em dólar, uma valorização da moeda americana pode encarecer produtos importados e insumos utilizados pela indústria brasileira.
Cícero Pimenteira destaca justamente essa relação entre as decisões americanas e o cotidiano dos consumidores.
“O brasileiro, hoje, sente o impacto da eleição americana muito na questão da taxa de câmbio e quando você tem que importar produtos que são tarifados em dólar”, afirma.
O professor menciona os eletroeletrônicos como exemplo de produtos cujos preços podem ser influenciados pelo câmbio.
É importante observar, porém, que o resultado das midterms não determina sozinho a cotação do dólar. O comportamento da moeda depende também dos juros, das expectativas dos investidores, da economia brasileira e de outros fatores internacionais.
Pimenteira avalia ainda que as restrições comerciais americanas estimularam empresas brasileiras a buscar compradores em outros mercados, reduzindo parte da dependência das vendas aos Estados Unidos.
Uma derrota de Trump pode acabar com as tarifas sobre produtos brasileiros?
Essa é uma das questões em que os especialistas apresentam expectativas diferentes.
Para Cícero Pimenteira, um Congresso mais independente pode exercer maior controle sobre as decisões presidenciais e contribuir para reduzir tensões nas relações comerciais.
Paulo Velasco concorda que uma mudança na composição do Congresso pode aumentar a pressão política sobre Trump. Mas faz uma ressalva: isso não significa que as tarifas impostas aos produtos brasileiros serão retiradas automaticamente.
“Eu não estou muito otimista com a perspectiva de haver uma mudança muito significativa nesse quadro comercial”, afirma.
Velasco explica que o Executivo americano dispõe de instrumentos legais que lhe conferem considerável autonomia na política comercial. Um deles é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite investigar práticas comerciais estrangeiras consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos e adotar determinadas medidas em resposta.
Além disso, o protecionismo não é defendido exclusivamente pelos republicanos. Parlamentares democratas também podem apoiar barreiras comerciais para proteger setores econômicos de seus estados.
Velasco observa que o posicionamento de um congressista pode ser influenciado tanto pelo partido quanto pelos interesses da região que representa.
Isso ajuda a explicar por que uma mudança de maioria no Congresso não significa, necessariamente, uma mudança na política tarifária.
O professor, entretanto, considera possível que uma oposição mais forte obrigue Trump a dedicar maior atenção aos problemas internos, reduzindo o esforço político direcionado às pressões sobre o Brasil.
Entre esses desafios estão as negociações sobre o orçamento federal, que dependem diretamente da participação do Congresso.
Assim, os especialistas concordam sobre a possibilidade de maior controle parlamentar, mas divergem quanto à expectativa de uma melhora significativa nas relações comerciais.
O resultado também pode mudar a política externa americana?
Sim, embora os efeitos dependam da composição do Congresso e das decisões do próprio governo.
Nos Estados Unidos, o presidente conduz grande parte da política externa, mas o Congresso exerce funções importantes de fiscalização e controle orçamentário.
O Senado também participa da confirmação de embaixadores e de outras autoridades indicadas pelo presidente.
Paulo Velasco explica que uma maioria democrata poderia aumentar as cobranças sobre a administração Trump, inclusive em questões relacionadas ao Brasil e à América Latina.
O especialista menciona a possibilidade de parlamentares exigirem explicações de integrantes do governo, ampliarem investigações e questionarem decisões de política externa.
Na avaliação dele, a necessidade de responder a essas pressões poderia reduzir a atenção dedicada pelo governo americano a determinados conflitos diplomáticos e comerciais.
Cícero Pimenteira também considera que o novo Congresso poderá exercer uma fiscalização mais rigorosa sobre as decisões presidenciais.
“O Senado e a Câmara dos Deputados exercerão uma atividade que eles jamais deveriam ter abandonado, que é o seu poder de veto, o seu poder de questionar as atitudes do Trump”, afirma.
Embora a expressão “poder de veto” seja utilizada pelo professor, o Congresso não dispõe de um veto geral sobre todos os atos presidenciais. Sua capacidade de limitar o Executivo varia conforme a matéria, os instrumentos legislativos disponíveis e as regras constitucionais.
As análises dos professores convergem em um ponto: uma mudança na maioria parlamentar pode alterar o equilíbrio de poder em Washington.
Pimenteira enfatiza a possibilidade de maior contenção das decisões presidenciais. Velasco destaca os mecanismos institucionais de fiscalização e os limites concretos dessa mudança, especialmente nas questões comerciais.
O que devemos acompanhar depois da votação?
Quando os resultados começarem a ser divulgados, duas perguntas serão fundamentais: quem terá maioria na Câmara dos Representantes e quem controlará o Senado?
Os republicanos podem manter as duas Casas, perder apenas uma delas ou perder ambas. Cada cenário terá consequências diferentes para a capacidade de Trump de negociar e aprovar sua agenda.
Para Paulo Velasco, também será importante observar o tamanho das maiorias. Uma vantagem pequena pode exigir acordos frequentes, enquanto uma maioria mais ampla pode facilitar a atuação das comissões e a aprovação de propostas.
O professor ressalta que as pesquisas nacionais devem ser interpretadas com cautela, já que os resultados dependem de disputas locais.
Cícero Pimenteira chama a atenção para o comportamento dos parlamentares depois da eleição. Na avaliação dele, o principal será observar se o Congresso terá disposição para fiscalizar o governo e questionar decisões presidenciais.
A nova legislatura tomará posse em janeiro de 2027. A partir daí, será possível avaliar como as mudanças nas urnas se traduzirão em negociações, investigações, votações e decisões políticas.
Para o brasileiro, acompanhar as midterms não significa esperar uma mudança imediata no preço do dólar ou nas tarifas comerciais. Significa compreender como o equilíbrio de poder nos Estados Unidos pode influenciar decisões econômicas e diplomáticas que ultrapassam suas fronteiras.
Trump continuará presidente. Mas, a composição do Congresso poderá determinar até onde ele conseguirá avançar com suas propostas nos dois anos restantes de mandato.
Claudia Rosa é jornalista e mestranda em Administração pela Universidade Federal Fluminense (UFF)








