Após meses de especulações e operações marítimas nas proximidades da costa venezuelana, os Estados Unidos lançaram neste sábado uma ofensiva militar contra alvos em Caracas e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa. A ação marca o ponto mais alto da escalada de pressão política, econômica e militar exercida por Washington sobre o governo chavista.
Até então, o governo americano vinha justificando suas iniciativas no Caribe e o cerco econômico a Caracas como parte de uma estratégia de combate ao narcotráfico e às rotas de drogas associadas a grupos criminosos ligados à Venezuela. Paralelamente, descrevia Maduro como líder de um regime corrupto e sustentava agir em nome da segurança regional.
Pressão crescente no Caribe
Antes do ataque, autoridades americanas já haviam intensificado medidas contra o entorno do presidente venezuelano. Sanções foram ampliadas, familiares de Maduro passaram a ser alvo direto de restrições e um bloqueio rigoroso foi imposto a navios petroleiros ligados à Venezuela. Embarcações foram apreendidas e operações marítimas se tornaram frequentes, ampliando o isolamento do país sul-americano.
Essas ações aprofundaram a crise econômica venezuelana e aumentaram o cerco político ao governo chavista, preparando o terreno para a ofensiva militar anunciada neste fim de semana.
Resposta de Caracas
Antes de ser capturado, Maduro vinha classificando as ações dos Estados Unidos como uma tentativa de golpe e uma ameaça direta à soberania nacional. Ele acusava Washington de usar o combate às drogas como pretexto para forçar sua saída do poder e chegou a chamar as interceptações de navios de roubo descarado e pirataria naval criminosa.
Para o governo venezuelano, a ofensiva representava não apenas uma disputa política, mas um ataque direto à autonomia do país.
De olho no petróleo
Especialistas avaliam que os interesses americanos vão muito além do discurso antidrogas. A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, com cerca de 303 bilhões de barris, o equivalente a aproximadamente 17% das reservas globais conhecidas, segundo dados oficiais do setor energético dos EUA.
Esse volume coloca o país à frente de gigantes como Arábia Saudita e Irã. Apesar do potencial, grande parte do petróleo venezuelano é extra-pesado, exigindo tecnologia avançada e altos investimentos, o que limita sua exploração em meio às sanções e à precariedade da infraestrutura.
Interesse estratégico dos EUA
Nesse contexto, o petróleo venezuelano desperta atenção especial de Washington. Dados do setor indicam que esse tipo de óleo é especialmente adequado às refinarias norte-americanas, sobretudo as localizadas na Costa do Golfo. Para analistas, ampliar o acesso a esse petróleo poderia ajudar a reduzir preços internos de combustíveis e aliviar o custo de vida nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, pressionar a produção e as exportações venezuelanas atinge o coração da economia do país e enfraquece a base de sustentação do governo chavista. Nas últimas semanas, sinais desse impacto começaram a surgir, com dificuldades de armazenamento de petróleo em Caracas após medidas para impedir a atracação de navios.
A sombra da China
Outro fator central é a relação estreita entre Venezuela e China. Antes das sanções impostas em 2019, os Estados Unidos eram os principais compradores do petróleo venezuelano. Com o bloqueio, grande parte das exportações passou a ocorrer por meio de acordos de petróleo em troca de empréstimos, especialmente com Pequim.
A China tornou-se o principal destino do petróleo venezuelano e já concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década, usando carregamentos de petróleo como garantia. Em 2023, cerca de 68% das exportações de petróleo bruto da Venezuela tiveram como destino o país asiático.
Para analistas de política internacional, conter a influência chinesa na América Latina é um dos objetivos centrais da estratégia americana, sobretudo diante da disputa global entre Washington e Pequim.
América do Sul no radar
A ofensiva contra a Venezuela também se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento dos Estados Unidos na América do Sul. O governo americano busca reforçar sua presença e influência na região diante do avanço econômico e diplomático da China.
Nesse cenário, explicam especialistas, Washington tem adotado uma postura pragmática, aproximando-se de países estratégicos da região e reduzindo tensões com governos que exercem papel relevante no mercado global de energia, como Brasil e Argentina.
Abertura de mercado
Além do petróleo, há interesse em ampliar a atuação de empresas americanas na Venezuela. Setores da oposição chavista defendem a abertura do mercado venezuelano a companhias dos EUA, não apenas na extração de commodities, mas também em atividades industriais e tecnológicas.
Essa estratégia dialoga com a política comercial adotada por Donald Trump em seu segundo mandato, voltada a expandir exportações americanas e garantir acesso privilegiado a mercados internacionais.
Doutrina Monroe revisitada
Por trás da agenda de Trump está também uma reinterpretação da Doutrina Monroe, formulada no século XIX, que define a América Latina como área de interesse estratégico prioritário dos Estados Unidos. A nova estratégia de política externa da Casa Branca defende concentrar esforços no hemisfério ocidental e reduzir o envolvimento em outras regiões do mundo.
Especialistas avaliam que essa abordagem resgata uma visão de hegemonia continental, com o objetivo de afastar concorrentes globais da região, sobretudo a China, e assegurar a expansão dos interesses econômicos e estratégicos americanos.
Nesse contexto, a ofensiva contra a Venezuela não surge como um episódio isolado, mas como parte de uma estratégia mais ampla, na qual disputas por recursos, influência geopolítica e poder econômico se sobrepõem ao discurso oficial de combate ao narcotráfico e defesa da segurança regional.






