Nesta quinta-feira (22), líderes da União Europeia vão se encontrar para decidir qual será a reação do bloco às novas ameaças tarifárias de Donald Trump. O presidente norte-americano promete sobretaxar oito países — seis deles membros da UE — como instrumento de pressão política em sua controversa tentativa de ampliar o controle dos EUA sobre a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.
Entre as opções em debate estão medidas consideradas extremas no histórico das relações transatlânticas, incluindo a ativação da chamada “bazuca comercial”, a imposição de tarifas retaliatórias bilionárias e até a suspensão de um acordo comercial entre a UE e os Estados Unidos que ainda não entrou em vigor.
As opções sobre a mesa em Bruxelas
De acordo com autoridades europeias, o bloco avalia três caminhos principais:
- Ativação da “bazuca comercial”: instrumento legal inédito que permitiria restringir o acesso de empresas americanas — inclusive do setor de serviços e tecnologia — ao mercado europeu;
- Tarifas retaliatórias sobre cerca de 93 bilhões de euros (aproximadamente R$ 588 bilhões) em produtos importados dos EUA;
- Suspensão do acordo comercial UE–EUA, negociado, mas ainda não ratificado.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou no fim de semana que a Europa “não será chantageada”. Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, declarou que pretende dialogar com Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, mas advertiu: “Se formos confrontados com tarifas que consideramos irracionais, somos plenamente capazes de responder”.
Trump minimiza reação europeia
Questionado sobre uma possível retaliação da UE, Donald Trump demonstrou desdém. “Eu não acho que eles vão resistir muito. Olha, nós temos que tê-la [a Groenlândia]”, disse o presidente, reforçando a retórica expansionista que tem causado desconforto entre aliados históricos.
Em uma mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store, Trump chegou a vincular sua iniciativa à frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz. “Como seu país decidiu não me conceder o Nobel por eu ter impedido oito guerras, não me sinto mais obrigado a pensar exclusivamente na paz”, escreveu. Store respondeu lembrando que o prêmio é concedido por um comitê independente, sem interferência do governo norueguês.
Países na mira e tensão militar
Entraram no radar de Washington Dinamarca, Finlândia, Suécia, França, Alemanha e Holanda, todos membros da UE, além do Reino Unido. Os países passaram a ser alvo das ameaças após o envio de militares à Groenlândia em missões de reconhecimento. Mesmo diante das tarifas anunciadas, essas nações afirmam que manterão uma postura de rejeição à escalada retórica dos EUA.
O que é a “bazuca comercial” da UE
O termo que domina as discussões em Bruxelas é a “bazuca comercial”, apelido do Instrumento Anticoerção (ACI), legislação aprovada em 2023, mas nunca utilizada. Caso seja acionada, a Comissão Europeia poderá impor sanções comerciais pesadas contra países que usem coerção econômica como arma política.
Entre as medidas possíveis estão restrições a investimentos estrangeiros, controles de exportação de insumos estratégicos e até o bloqueio de grandes empresas de tecnologia americanas no mercado europeu.
O presidente francês, Emmanuel Macron, é um dos principais defensores do uso do ACI. Já a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, demonstra resistência, temendo uma escalada definitiva na disputa com Washington. “O ACI contém ferramentas com impacto real, mas sua implementação leva tempo”, avalia Penny Naas, analista do German Marshall Fund.
Macron acusa Trump de imperialismo
Durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Macron acusou os Estados Unidos de quererem “enfraquecer e subordinar” a Europa. Segundo ele, o continente dispõe de “ferramentas muito fortes” na área comercial e não deve hesitar em utilizá-las.
O líder francês voltou a classificar as ambições americanas sobre a Groenlândia como uma expressão de “novo colonialismo e imperialismo”, crítica que já havia feito na semana anterior.
IA, provocação e escalada simbólica
Em meio à crise diplomática, Trump publicou em sua rede social, Truth, montagens geradas por inteligência artificial que mostram os Estados Unidos “anexando” a Groenlândia, além do Canadá e da Venezuela. As imagens, divulgadas sem aviso de manipulação, circularam poucas horas antes de sua viagem a Davos e foram interpretadas por diplomatas europeus como uma provocação direta.
As montagens incluem líderes como Ursula von der Leyen, Keir Starmer, Emmanuel Macron, Friedrich Merz, Giorgia Meloni, além do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, ampliando o constrangimento internacional.
Um teste decisivo para a relação UE–EUA
A reunião desta quinta-feira pode marcar um divisor de águas nas relações entre Europa e Estados Unidos. O uso da “bazuca comercial”, até agora apenas teórico, sinalizaria que Bruxelas está disposta a enfrentar Washington em um dos momentos mais tensos da geopolítica ocidental desde o fim da Guerra Fria.






