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Afastamentos por burnout disparam no Brasil e acendem alerta sobre saúde mental no trabalho

Licenças por esgotamento profissional cresceram mais de 800% em quatro anos; especialistas apontam pressão excessiva, jornadas longas e hiperconexão como causas

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Foto: Reprodução

Os afastamentos de trabalhadores por burnout cresceram de forma acelerada no Brasil nos últimos quatro anos, refletindo o agravamento da crise de saúde mental no ambiente profissional. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os benefícios concedidos por incapacidade temporária causada por esgotamento profissional passaram de 823 casos, em 2021, para 7.595 em 2025 — um aumento de cerca de 823%.

O avanço também aparece nas denúncias relacionadas à saúde mental recebidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Os registros saltaram de 190 para 1.022 no mesmo período, alta de aproximadamente 438%.

Especialistas afirmam que o crescimento dos casos está ligado a uma combinação de fatores, como jornadas extensas, metas consideradas abusivas, pressão constante por produtividade, insegurança financeira e a dificuldade de separar vida pessoal e trabalho em um cenário cada vez mais digital.

O psiquiatra Arthur Danila, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, em entrevista ao G1, disse que o trabalhador atual vive em um ambiente marcado por excesso de cobrança e conexão permanente.

“O trabalho ficou mais acelerado, mais conectado, mais monitorado e mais competitivo. Isso cria um estado contínuo de alerta que prejudica o descanso mental e emocional”, afirma.

A pandemia da Covid-19 também é apontada como um marco importante nesse processo. Apesar da recuperação do mercado de trabalho, muitas empresas mantiveram ritmos intensos de produção e ampliaram o uso de ferramentas digitais, fazendo com que muitos profissionais permaneçam disponíveis mesmo fora do expediente.

Desde 2022, o burnout passou a integrar a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS), como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho. O reconhecimento ajudou a ampliar o diagnóstico e a visibilidade do problema.

O burnout é caracterizado principalmente por exaustão extrema, distanciamento emocional em relação ao trabalho e queda no desempenho profissional. Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade, irritabilidade, insônia, dificuldade de concentração e sensação constante de esgotamento.

Relatos de trabalhadores afastados mostram como o problema se desenvolve no cotidiano profissional. Profissionais de diferentes áreas relatam pressão por resultados, excesso de tarefas, falta de reconhecimento e jornadas prolongadas como fatores que contribuíram para o adoecimento.

Além do impacto individual, o aumento dos casos também pressiona o debate sobre responsabilidade das empresas e fiscalização das condições de trabalho. O governo federal prevê atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), incluindo os chamados riscos psicossociais no ambiente profissional.

Com a mudança, situações como metas excessivas, assédio moral, sobrecarga de trabalho e ausência de suporte poderão ser fiscalizadas pelos auditores do trabalho e gerar punições às empresas.

A medida deveria ter entrado em vigor em 2025, mas foi adiada para maio deste ano após pressão de entidades empresariais. O Ministério do Trabalho informou que, até o momento, não há previsão de novo adiamento.

Especialistas defendem que o crescimento dos afastamentos mostra a necessidade urgente de políticas voltadas à prevenção do adoecimento mental e à melhoria das condições de trabalho no país.