O número de trabalhadores com ensino superior completo no Brasil mais que dobrou entre 2012 e 2025, alcançando o maior patamar da série histórica da Pnad Contínua, levantamento divulgado pelo IBGE. Apesar do avanço expressivo na presença de graduados no mercado de trabalho, os dados revelam que a renda média desse grupo continua abaixo do recorde registrado há mais de uma década.
Segundo o estudo, a população ocupada com diploma universitário saltou de 12,6 milhões para 25,5 milhões de pessoas no período de 13 anos, um crescimento de 103,3%. O aumento absoluto foi de quase 13 milhões de trabalhadores, volume superior à população inteira da cidade de São Paulo.
No mesmo intervalo, o total de pessoas ocupadas no país cresceu em ritmo bem menor: 17,8%, passando de 86,3 milhões para 101,6 milhões de trabalhadores.
Os números reforçam a transformação do perfil da mão de obra brasileira nos últimos anos, marcada pela ampliação do acesso ao ensino superior, expansão de universidades e crescimento acelerado do ensino a distância (EAD).
Ensino superior avança no mercado
Em 2025, trabalhadores com diploma universitário passaram a representar 25,1% da população ocupada do país. Em 2012, esse percentual era de 14,6%.
Mesmo com o avanço, especialistas apontam que o crescimento da oferta de profissionais qualificados ajudou a reduzir o diferencial salarial historicamente associado ao ensino superior.
“Houve expansão do número de pessoas com esse tipo de qualificação. Isso faz com que a oferta aumente e traz um impacto de redução do que a gente chama de prêmio salarial do trabalho qualificado”, diz o economista Daniel Duque, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas).
Em 2025, a renda média dos trabalhadores com ensino superior completo foi de R$ 6.947 por mês. O valor representa alta de 3,9% em relação a 2024, mas ainda permanece 13,4% abaixo do recorde da série histórica, registrado em 2014, quando a média chegou a R$ 8.023.
Enquanto isso, o rendimento médio do conjunto total de trabalhadores brasileiros atingiu recorde histórico no ano passado, chegando a R$ 3.560 mensais.
A diferença entre os salários de trabalhadores graduados e aqueles com ensino médio completo continua elevada, embora menor do que há uma década. Em 2025, profissionais com ensino superior receberam, em média, 163,1% a mais que trabalhadores com ensino médio completo, cuja renda foi de R$ 2.640.
Em 2014, essa diferença era ainda maior, chegando a 189,8%.
Crises econômicas e mudança no perfil dos cursos
Economistas também relacionam a perda de força da renda média dos graduados às crises econômicas enfrentadas pelo Brasil desde 2014, incluindo a recessão de 2015 e 2016 e os impactos provocados pela pandemia de Covid-19 a partir de 2020.
Na avaliação de especialistas, outro fator importante é a ampliação de cursos superiores ligados a áreas com remuneração historicamente mais baixa.
“Há uma diminuição do que a gente chama de prêmio educacional. Ou seja, o fato de a pessoa ter graduação acaba sendo menos valorizado do que era um tempo atrás”, diz o economista Ely José de Mattos, pesquisador do centro de estudos PUCRS Data Social.
“Mas esse prêmio continua sendo muito alto no Brasil, porque o volume de graduados ainda é relativamente pequeno se comparado a países mais desenvolvidos”, pondera.
Ely também afirma que a recuperação recente do mercado de trabalho foi puxada principalmente por profissionais de menor qualificação.
“Estou falando de trabalhadores de qualificação um pouco mais baixa.”
Os dados da Pnad mostram que grupos de menor escolaridade tiveram desempenho relevante na renda nos últimos anos. Trabalhadores sem instrução atingiram recorde salarial em 2024, enquanto ocupados com ensino fundamental incompleto e ensino médio incompleto registraram máximas históricas em 2025.
IBGE aponta múltiplos fatores
O IBGE destaca que diversos elementos ajudam a explicar por que os salários dos graduados ainda não retomaram o pico histórico.
Em nota, o analista Gustavo Geaquinto afirmou que mudanças tecnológicas, alterações na dinâmica econômica e diferenças entre setores produtivos podem ter afetado a demanda por mão de obra qualificada.
Ele também ressaltou que o grupo de trabalhadores com ensino superior não é homogêneo, reunindo profissionais de diferentes áreas de formação e níveis de remuneração.
Outra versão da Pnad Contínua, divulgada em maio deste ano e baseada em dados trimestrais, reforça o mesmo cenário. No primeiro trimestre de 2026, a renda média dos trabalhadores com ensino superior foi de R$ 7.236, ainda 11% abaixo do recorde registrado no terceiro trimestre de 2014.
O levantamento considera valores corrigidos pela inflação e engloba trabalhadores com 14 anos ou mais.










