O Brasil registrou 741 vítimas de feminicídio entre janeiro e junho de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa uma redução de 2,5% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 760 mortes. Na prática, foram 19 mulheres assassinadas a menos por razões de gênero nos seis primeiros meses do ano.
Apesar da queda nacional, os indicadores revelam um cenário desigual entre os estados. Em nove unidades da federação, os casos cresceram em comparação com o primeiro semestre de 2025, evidenciando que a violência contra a mulher permanece como um dos principais desafios da segurança pública brasileira.
Os dados mostram que, em média, quatro mulheres foram vítimas de feminicídio por dia no país no primeiro semestre. O crime é caracterizado quando o assassinato ocorre em contexto de violência doméstica e familiar ou em razão do menosprezo ou da discriminação à condição feminina.
Embora o resultado nacional indique redução, algumas regiões apresentaram aumento expressivo dos casos.
Goiás registrou o maior crescimento percentual do país, com alta de 113,6% no número de feminicídios. Em seguida aparecem Sergipe, com aumento de 71,4%; Amazonas, com 66,7%; e Santa Catarina, onde os registros cresceram 33,3%.
Também houve elevação dos casos no Paraná (17%), Amapá (16,7%), Rio Grande do Sul (13,9%), São Paulo (10,1%) e Rio Grande do Norte (10%).
O comportamento da violência de gênero varia significativamente entre os estados, exigindo políticas públicas específicas e ações integradas de prevenção e proteção às mulheres.
A legislação brasileira passou por importantes mudanças nos últimos anos para ampliar a punição aos autores desse tipo de crime. A Lei do Feminicídio entrou em vigor em 9 de março de 2015, alterando o Código Penal para reconhecer os assassinatos de mulheres motivados por questões de gênero.
Em 2024, a legislação foi novamente modificada. O feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do homicídio e passou a constituir um crime autônomo, com penas que variam entre 20 e 40 anos de prisão.
Nos casos em que há circunstâncias agravantes previstas em lei, a condenação pode chegar a 60 anos de reclusão, tornando o feminicídio o crime com a pena máxima mais elevada atualmente prevista na legislação penal brasileira.
Governo amplia ações de combate à violência
Como parte das estratégias para reduzir os índices de violência contra as mulheres, o governo federal lançou neste ano o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. A iniciativa busca fortalecer a rede de proteção às vítimas, integrar políticas públicas e ampliar a capacidade de resposta dos órgãos de segurança e do sistema de Justiça.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública também inaugurou o Centro Integrado Mulher Segura, estrutura criada para monitorar e integrar nacionalmente os serviços de atendimento às mulheres em situação de violência.
Outra frente de atuação é uma operação nacional coordenada pela pasta em parceria com as polícias civis e militares dos estados.
Segundo o ministério, a ação já resultou, somente neste ano, na prisão de mais de 10 mil pessoas investigadas ou flagradas por crimes relacionados à violência contra a mulher, incluindo feminicídio, ameaça, lesão corporal e descumprimento de medidas protetivas.
Especialistas pedem cautela na análise dos dados
Apesar da redução registrada no primeiro semestre, pesquisadores e especialistas recomendam cautela na interpretação dos números.
A série histórica mostra que, embora o total de feminicídios tenha diminuído em relação a 2025, o volume de casos em 2026 ainda permanece acima dos níveis observados em anos anteriores.
Parte desse aumento ao longo dos últimos anos é atribuída ao aperfeiçoamento dos sistemas de investigação e classificação das ocorrências pelas polícias e pelo Poder Judiciário. Com a melhoria dos protocolos, mortes de mulheres que antes eram registradas como homicídios passaram a ser corretamente enquadradas como feminicídios.
Especialistas ressaltam, entretanto, que esse fator não explica sozinho a dimensão do problema. A permanência da violência doméstica, das desigualdades de gênero e do machismo estrutural continua sendo apontada como a principal causa dos assassinatos de mulheres no país.








