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A matemática já decidiu: sem os votos de Garotinho, Douglas Ruas é governador eleito no primeiro turno

Com 4,27 milhões de votos, Douglas supera sozinho a soma de Eduardo Paes e de todos os demais candidatos e confirma a força de uma direita que não teve medo de dizer quem era

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Douglas Ruas teve 4.271.199 votos para governador do Rio de Janeiro. A soma de Eduardo Paes e de todos os demais candidatos, desconsiderando os votos dados a Anthony Garotinho, chega a 4.123.428. A diferença é de 147.771 votos. A conta é simples: sem Garotinho na base de votos válidos, Douglas Ruas tem mais votos sozinho do que todos os seus adversários somados.

É daí que nasce a principal discussão política e jurídica desta segunda-feira. Se os 274.411 votos recebidos por Anthony Garotinho forem definitivamente anulados e retirados do cálculo dos válidos, Douglas ultrapassa os 50% exigidos pela legislação e vence a eleição no primeiro turno. Não é projeção, não é pesquisa e não é expectativa de segundo turno. É matemática.

Com os votos de Garotinho provisoriamente considerados na totalização, Douglas aparece com 49,27%, enquanto Eduardo Paes tem 42,76%. A diferença entre os dois é de 564.215 votos. Neste cenário, o TSE aponta segundo turno para 25 de outubro, mas a situação pode mudar justamente quando houver uma definição definitiva sobre Garotinho.

A mesma conta foi destacada pelo jornalista Cláudio Magnavita, do Correio da Manhã. Sem Garotinho, os demais candidatos somam 4.123.428 votos, contra os 4.271.199 recebidos por Douglas. Por isso, a discussão deixou de ser apenas sobre quem chegou na frente. Douglas chegou. A questão agora é saber quais votos a Justiça Eleitoral determinará que façam parte da conta definitiva.

A força desse resultado fica ainda maior quando se olha para o começo da campanha. Douglas Ruas apareceu com apenas 9% em uma das primeiras grandes pesquisas do ano. Durante meses, Eduardo Paes liderou os levantamentos e entrou na reta final como favorito. Mesmo poucos dias antes da eleição, as pesquisas continuavam apontando outro cenário.

Em 2 de outubro, o Datafolha mostrava Paes com 47% dos votos válidos, contra 35% de Douglas, no cenário com Garotinho. Sem o ex-governador, Paes aparecia com 48% e Douglas com 38%. Na véspera da eleição, a vantagem havia diminuído novamente, com Paes ainda na frente. A própria pesquisa apontava também um contingente importante de eleitores que admitia mudar o voto.

A urna virou essa fotografia. Douglas terminou com 49,27% e Paes com 42,76%. O candidato que passou praticamente toda a campanha correndo atrás terminou mais de seis pontos percentuais à frente.

E há um detalhe especialmente importante nessa história: durante a campanha, a saída de Garotinho não era tratada pelas pesquisas como algo necessariamente favorável a Douglas. Pelo contrário. Os levantamentos sem Garotinho chegaram a mostrar Paes ampliando sua possibilidade de vitória no primeiro turno. Em setembro, pesquisas indicavam que a retirada do ex-governador poderia ajudar Paes a concentrar parte do chamado voto útil.

Até a divisão dos eleitores de Garotinho em um eventual segundo turno aparecia praticamente equilibrada. Levantamento Datafolha apontou 47% inclinados a Paes e 45% a Ruas. Ou seja: o voto útil também poderia ter ajudado Eduardo Paes.

Se Garotinho tivesse sido retirado da disputa antes da eleição, não existe base para afirmar que seus eleitores migrariam automaticamente para Douglas. Uma parcela poderia escolher Ruas, outra poderia votar em Paes e outros poderiam optar por candidatos menores, branco ou nulo. As próprias pesquisas indicavam que Paes também poderia se beneficiar dessa reorganização.

Por isso, o resultado de domingo é ainda mais expressivo. Douglas não chegou aos 49,27% porque recebeu, no papel, os votos de Garotinho. Ele chegou lá com Garotinho na urna e recebendo 274.411 votos. E agora é justamente a eventual retirada desses votos da base de válidos que transforma uma vitória em primeiro lugar numa vitória matemática de primeiro turno.

Foi uma arrancada. Douglas saiu de um dígito nas pesquisas para 4.271.199 votos. Saiu da condição de candidato que precisava se apresentar para o estado para terminar como o homem mais votado para o Palácio Guanabara. Mais do que isso: construiu uma votação espalhada pelo Rio.

Douglas venceu em 79 dos 92 municípios fluminenses. Eduardo Paes venceu em 13. O candidato do PL levou os 13 municípios da Baixada Fluminense, venceu São Gonçalo e dominou grande parte do interior. Seu melhor resultado percentual ocorreu em São José do Vale do Rio Preto, onde chegou a 70,87%. Em São Gonçalo, seu principal reduto político, teve aproximadamente 60% dos votos válidos.

Paes confirmou sua força na capital. Douglas mostrou força estadual. Essa talvez seja uma das principais diferenças reveladas pelo mapa de domingo. O Palácio Guanabara não é escolhido apenas pela cidade do Rio. Existem outros 91 municípios. Existe a Baixada, São Gonçalo, a Região dos Lagos, a Costa Verde, a Serra, o Norte, o Noroeste e o Sul Fluminense.

Foi esse estado, chamado durante a campanha de “Rio Real”, que apareceu com força nas urnas. O slogan virou mapa: 79 a 13.

A vitória de Douglas também não pode ser analisada de forma isolada. O domingo mostrou uma direita fluminense organizada eleitoralmente. Flávio Bolsonaro declarou apoio a Douglas ainda em março. Durante a campanha, Douglas também deixou explícito seu apoio à candidatura presidencial de Flávio e afirmou que os dois teriam agendas conjuntas no estado.

Na reta final, a imagem era praticamente uma fotografia da estratégia adotada: Flávio Bolsonaro, Douglas Ruas, Carlos Portinho e Carlos Jordy. Os quatro estiveram juntos no encerramento da campanha na Zona Oeste.

Douglas não tratou sua identificação com o bolsonarismo como um problema que precisasse ser escondido. Assumiu esse campo político. E o eleitor conservador foi progressivamente se concentrando em sua candidatura. Levantamentos ao longo da campanha já mostravam esse movimento. Douglas passou de 37% para 63% entre os eleitores de Flávio Bolsonaro em um intervalo de cerca de um mês.

Enquanto isso, Eduardo Paes adotava outra estratégia. Manteve a aliança com Lula, participou de agendas com o presidente e recebeu apoio do PT, mas dosou essa associação durante a campanha e buscou preservar diálogo com setores mais amplos do eleitorado.

São estratégias diferentes. Paes procurou amplitude. Douglas procurou identidade. Neste primeiro turno, a estratégia da direita conseguiu produzir elevada coesão eleitoral.

O Senado reforça essa leitura. Carlos Portinho terminou em primeiro, com 4.264.932 votos e 26,77%. Carlos Jordy ficou em segundo, com 3.912.405 votos e 24,56%. As duas vagas ficaram com o PL.

A direita conseguiu fazer uma dobradinha para o Senado e colocar seu candidato ao Governo na liderança. Não significa que exista transferência automática de votos. Eleitor não pertence a candidato ou partido. Mas significa que o campo apresentou uma identidade facilmente reconhecida.

Flávio pediu voto para Douglas. Douglas pediu voto para Flávio. Portinho e Jordy caminharam juntos e pediram votos um para o outro. Na hora decisiva, o eleitor daquele campo sabia quem eram seus candidatos.

Do outro lado, Eduardo Paes montou uma aliança politicamente mais heterogênea. Tinha Lula como aliado e o apoio petista, mas também precisava conversar com segmentos que não votariam no presidente. Na disputa ao Senado, esse campo reunia Pedro Paulo e Benedita da Silva. Pedro Paulo era o nome diretamente ligado ao núcleo político de Paes. Benedita carregava a identidade histórica do PT e sua ligação política com Lula.

Benedita cumpriu até o fim a composição construída pela aliança e pediu votos para Pedro Paulo ao lado da própria candidatura. Ela terminou em terceiro lugar, atrás justamente da dupla Portinho-Jordy.

O contraste eleitoral é evidente. De um lado, uma aliança mais ampla, tentando acomodar diferentes eleitorados. Do outro, um campo ideologicamente mais homogêneo apresentando seus candidatos de forma integrada. Não é necessário transformar essa diferença em ataque a Paes para reconhecer o dado político: a direita conseguiu votar em bloco.

A trajetória de Douglas nesta eleição tem ainda uma ironia difícil de ignorar. Meses antes de receber mais de quatro milhões de votos, ele foi eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio justamente durante uma crise sucessória no Governo do Estado. Em uma linha sucessória normal, o presidente da Alerj estaria diretamente relacionado à possibilidade de assumir o Palácio Guanabara.

Douglas não assumiu. O impasse foi levado ao Judiciário e o comando interino do governo permaneceu fora da Assembleia. O homem que chegou à presidência da Alerj e não entrou no Guanabara pela sucessão agora recebeu 4,27 milhões de votos para chegar lá pelas urnas.

E, novamente, seu caminho passa por uma decisão judicial. Desta vez, por causa de Anthony Garotinho.

A situação de Garotinho produziu uma anomalia nesta eleição. O ex-governador teve sua candidatura indeferida, recorreu e permaneceu na disputa sob questionamento judicial. O eleitor chegou à urna, encontrou seu nome, digitou seu número e apertou confirma. Foram 274.411 pessoas.

Agora, essas pessoas aguardam para descobrir qual será o efeito jurídico de seus votos. Se o indeferimento prevalecer definitivamente e os votos forem excluídos da base válida, eles deixam de participar da conta que define o governador.

Politicamente, é impossível ignorar o problema. Quase 275 mil eleitores podem ter sua escolha desconsiderada na totalização definitiva. E a dimensão do caso é ainda maior porque esses votos determinam se o estado terá ou não segundo turno.

A definição poderia ter chegado antes. Não chegou. A demora produziu insegurança para os eleitores de Garotinho, para Douglas, para Paes, para os institutos de pesquisa, para as campanhas e para o próprio processo eleitoral. O Rio terminou a noite de domingo sabendo quem teve mais votos, mas sem saber se precisará votar novamente.

Essa não é uma diferença pequena. É a diferença entre uma eleição encerrada e três novas semanas de campanha.

E se Garotinho não estivesse na urna? É uma pergunta legítima, mas sem resposta definitiva. Os 274.411 votos de Garotinho não podem simplesmente ser entregues retroativamente a Douglas. Nem a Paes.

As pesquisas indicavam divisão praticamente equilibrada entre os eleitores do ex-governador e mostravam que sua eventual ausência poderia alimentar voto útil também em favor de Eduardo Paes. A retirada de Garotinho poderia beneficiar Douglas, mas também poderia beneficiar Paes. Poderia alterar a estratégia das campanhas, a propaganda eleitoral, os debates e o próprio comportamento do eleitor.

Ninguém sabe. E justamente por ninguém saber é que a situação deveria ter sido definida antes do eleitor entrar na cabine.

A eleição que efetivamente aconteceu teve Garotinho. Ele recebeu 274 mil votos. Douglas recebeu 4,27 milhões. Paes recebeu 3,70 milhões. É sobre esses números reais que a Justiça precisará tomar sua decisão.

Outro número também merece atenção. O Rio de Janeiro registrou aproximadamente 23,3% de abstenção no primeiro turno. Foram cerca de 3 milhões de eleitores que não compareceram às urnas.

É um contingente gigantesco, muito maior do que os 564 mil votos que separam Douglas de Paes. Isso não permite dizer para quem esses eleitores votariam. Mas, caso exista segundo turno, eles representarão um dos maiores contingentes ainda disponíveis para mobilização pelas duas campanhas.

Antes disso, porém, existe uma pergunta mais básica: haverá segundo turno?

Oficialmente, Douglas Ruas e Eduardo Paes estão classificados para uma nova votação enquanto os votos de Garotinho permanecem interferindo no cálculo atual. Essa é a situação jurídica deste momento.

Mas existe outra situação igualmente objetiva. Se os votos de Garotinho forem definitivamente anulados, Douglas Ruas tem maioria absoluta. Mais do que isso: Douglas tem 4.271.199 votos. Todos os demais candidatos, excluído Garotinho, somam 4.123.428. Douglas tem 147.771 votos a mais do que todos eles juntos.

Esse é o coração da discussão. Não se trata de dizer que Douglas deveria receber votos que foram dados a Garotinho. Não precisa. Ele já tem votos suficientes. Também não se trata de imaginar como votariam os eleitores do ex-governador se seu nome não estivesse na urna. Essa eleição não aconteceu.

Na eleição que aconteceu, Douglas recebeu mais votos do que Paes, venceu em 79 municípios, superou as pesquisas, saiu de 9% para 49,27% e teve mais de 4,27 milhões de votos. E, retirada da base válida uma candidatura que pode ter seus votos definitivamente anulados, recebeu mais votos do que todos os outros candidatos somados.

Por isso a tese é matemática.

A direita fluminense também sai desse primeiro turno com uma demonstração clara de força eleitoral. Portinho e Jordy conquistaram as duas vagas do Senado. Douglas liderou para governador. Flávio Bolsonaro construiu no estado um palanque claramente identificado com sua candidatura presidencial.

Os nomes caminharam juntos. A mensagem foi simples. O eleitor compreendeu. E o mapa eleitoral mudou.

O “Rio Real” apareceu. A Baixada apareceu. São Gonçalo apareceu. O interior apareceu. Os indecisos decidiram.

E o candidato que começou a campanha com 9% terminou com mais votos do que qualquer outro nome na disputa pelo Governo do Rio.

Agora cabe ao TSE resolver a parte que a urna não poderia resolver. Porque, se os votos de Anthony Garotinho não forem válidos, a matemática já decidiu: Douglas Ruas venceu o Governo do Rio no primeiro turno.