A Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) completou quatro décadas de atuação na resposta à epidemia de HIV/Aids no Brasil. Para marcar a data, a entidade realizou, nos dias 29 e 30 de outubro, no Rio de Janeiro, o seminário “40 Anos de Solidariedade: A ABIA, a Sociedade Civil e a Construção da Resposta à Epidemia do HIV no Brasil”. Durante o encontro, também foi apresentado um novo Diretório Digital, com mais de quatro mil materiais disponíveis para consulta pública.
O acervo reúne reportagens, vídeos, artigos acadêmicos, documentos históricos e outras produções relacionadas à trajetória da epidemia no país. O material foi reunido ao longo de quatro décadas, com registros da própria ABIA, de organizações não governamentais e de instituições do governo federal. A plataforma pretende funcionar como fonte de pesquisa para jornalistas, estudantes, pesquisadores, profissionais de saúde e movimentos sociais.
Fundada a partir de articulações iniciadas em 1986 pelo sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho, e pelo escritor e ativista Herbert Daniel, a ABIA foi formalizada em 1987. Desde o início, a organização adotou a solidariedade, a defesa dos direitos humanos e a justiça social como princípios de atuação.
Na abertura do seminário, o presidente da instituição, Richard Parker, destacou que o enfrentamento do HIV não pode ser tratado apenas como uma questão médica, mas também social e política. Ele chamou atenção para o combate ao preconceito, ao estigma e à discriminação, considerados obstáculos importantes na resposta à epidemia.
Prevenção, tratamento e acesso à saúde
A programação reuniu ativistas, pesquisadores e representantes de organizações da sociedade civil para discutir os avanços conquistados e os desafios que permanecem no enfrentamento do HIV.
Entre os assuntos abordados estiveram novas estratégias de prevenção, a necessidade de ampliar o diálogo com os jovens, os direitos sexuais e o protagonismo das comunidades na construção de políticas públicas.
O acesso gratuito aos medicamentos antirretrovirais pelo Sistema Único de Saúde (SUS) também esteve entre os principais temas. Os participantes discutiram a importância de garantir o tratamento, ampliar o acesso às novas tecnologias de prevenção e enfrentar barreiras relacionadas a patentes e à propriedade intelectual.
A diretora executiva do Médicos Sem Fronteiras no Brasil, Renata Reis, participou do debate sobre acesso a medicamentos e defendeu a manutenção da gratuidade dos tratamentos como uma questão fundamental de dignidade humana.
O vice-presidente da ABIA, Veriano Terto Júnior, também ressaltou a importância de reconhecer os conhecimentos produzidos pelas próprias comunidades e integrá-los à pesquisa acadêmica e às políticas de saúde.
Memória e enfrentamento do preconceito
Além de celebrar a trajetória da instituição, o seminário buscou recuperar a memória da mobilização social que contribuiu para a construção da resposta brasileira à epidemia.
Ao longo de quatro décadas, a ABIA participou de debates e iniciativas em defesa do acesso universal à prevenção e ao tratamento, da participação da sociedade civil nas decisões de saúde pública e dos direitos das pessoas que vivem com HIV.
O novo Diretório Digital amplia esse trabalho de preservação da memória e coloca à disposição do público um acervo que ajuda a compreender as transformações na prevenção, no tratamento e nas políticas de enfrentamento à Aids no Brasil.
A iniciativa também reforça a importância de manter o debate sobre o HIV para além dos avanços científicos, considerando as desigualdades sociais, o preconceito e a garantia de direitos como questões fundamentais para o enfrentamento da epidemia.








