O principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, afirmou que o Brasil não deve aceitar, nos termos atuais, a proposta apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a criação de um chamado Conselho da Paz. Segundo Amorim, o modelo carece de clareza, amplia excessivamente seu escopo e concentra poder de maneira incompatível com o sistema multilateral que rege as relações internacionais.
Em entrevista ao Globo, Amorim avaliou que o estatuto enviado junto ao convite ao Brasil representa, na prática, uma tentativa unilateral de reformar a Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente no campo da paz e da segurança internacional. Para o diplomata, esse tipo de iniciativa não pode ser imposto por um único país.
“O documento representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”, afirmou.
Estatuto amplo e ausência de referência a Gaza
Um dos pontos mais criticados por Amorim é a falta de menção direta à Faixa de Gaza no texto da proposta. De acordo com ele, o estatuto apresentado não se limita a um conflito específico, mas abre margem para a atuação do conselho em qualquer crise internacional.
“A palavra ‘Gaza’ não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito. Isso está dito claramente”, disse o assessor. Na avaliação dele, o órgão poderia funcionar como uma espécie de Conselho de Segurança paralelo, com um presidente quase permanente, o que enfraqueceria os mecanismos tradicionais da ONU.
Amorim também apontou contradições no material enviado pelos Estados Unidos. “A própria carta é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo”, observou, reforçando a crítica ao caráter abrangente e pouco definido da proposta.
Falta de margem para negociação preocupa o Brasil
Outro aspecto que dificulta a adesão brasileira, segundo Amorim, é a ausência de espaço para negociação. De acordo com ele, Trump deixou claro que não aceita mudanças no texto apresentado aos países convidados.
“Ele disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil”, afirmou. Mesmo em um cenário hipotético de separação entre o tema de Gaza e o escopo mais amplo do conselho, o diplomata ponderou que o Brasil precisaria ouvir outros atores relevantes.
“O Oriente Médio é muito importante para nós. Seria preciso saber a opinião dos próprios palestinos e de outros países árabes”, acrescentou.
Convite não é visto como armadilha diplomática
Questionado sobre a possibilidade de o convite ser uma armadilha diplomática, Amorim descartou essa leitura. Segundo ele, a proposta foi encaminhada a diversos países e não teria como alvo específico o Brasil.
“Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim”, afirmou, ao comentar o estilo de Trump, que, segundo ele, tende a se colocar como figura central nas relações internacionais.
Eleições, extrema direita e atenção a interferências
No campo político, Amorim disse não enxergar sinais de interferência direta do presidente norte-americano nas eleições brasileiras, mas alertou para a atuação de grupos da extrema direita nos Estados Unidos.
“Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele. Agora, a extrema direita nos Estados Unidos é muito complexa. Há setores que criticam Trump, outros que são mais neutros, mas que certamente podem tentar interferir, como tentaram outras vezes. Temos que estar preparados para isso e saber nos defender”, afirmou.
Venezuela, soberania e riscos regionais
Ao comentar a situação da Venezuela, Amorim explicou que a diplomacia brasileira adota o princípio de reconhecer Estados, e não governos. “O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados. O fato real é que Delcy Rodríguez está à frente do governo. Se for necessário, lidamos com ela”, disse, lembrando contatos institucionais e o envio de medicamentos no início do atual mandato de Lula.
O assessor também reforçou a defesa da soberania regional. “Cada um cuida da sua”, afirmou, acrescentando que qualquer ofensiva contra um país sul-americano deve ser vista como uma ameaça potencial ao Brasil. “Um conflito em um país que faça fronteira com o Brasil pode ter repercussões para nós.”
Apesar das ressalvas, Amorim ponderou que não há, neste momento, uma ameaça concreta imediata. “O próprio Trump disse recentemente que gosta do Lula. Não é que estejamos temerosos, mas o precedente é muito ruim. Não podemos aceitar esse tipo de exemplo”, concluiu.






