Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta avanço da violência sexual em ambientes digitais e aumento de casos de maus-tratos dentro de casa.
Os registros de produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil cresceram 25,3% no Brasil em 2025, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Pela primeira vez, o estudo dedicou uma análise específica a esse tipo de crime e aponta que a expansão das redes sociais, aplicativos de mensagens e comunidades virtuais tem ampliado a exposição de crianças e adolescentes à violência sexual.
Foram contabilizadas 4.063 ocorrências envolvendo vítimas de até 17 anos, ante 3.280 em 2024. Entre jovens de 18 e 19 anos, os casos passaram de 181 para 265, alta de 49%.
Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores é que 34,2% dos registros têm adolescentes como autores, o equivalente a um em cada três casos. Segundo o coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Cauê Martins, o cenário revela uma violência praticada entre pessoas da mesma faixa etária.
“A gente percebe que é uma violência entre pares”, afirma o pesquisador.
O levantamento mostra ainda que 86,5% dos investigados são do sexo masculino. Para o Fórum, o crescimento está relacionado ao acesso cada vez mais precoce de adolescentes a ambientes virtuais pouco regulados, onde circulam conteúdos de misoginia, sexualização precoce e discursos de dominação masculina.
Adolescentes são as principais vítimas
As meninas representam 84,2% das vítimas, enquanto 78,3% têm entre 12 e 17 anos. A maior concentração de casos ocorre entre adolescentes de 12 a 15 anos.
Na avaliação de Cauê Martins, o fenômeno está diretamente ligado à violência de gênero reproduzida no ambiente digital.
O Anuário destaca que a evolução das tecnologias alterou profundamente as formas de socialização entre crianças e adolescentes, tornando crimes como aliciamento, produção e compartilhamento de material de abuso sexual infantil um dos principais desafios para a proteção desse público. O estudo também defende a regulamentação das plataformas digitais para reduzir a circulação desse tipo de conteúdo e responsabilizar empresas que facilitam sua disseminação.
Violência dentro de casa também aumenta
Além dos crimes no ambiente virtual, o Anuário aponta crescimento da violência doméstica contra crianças e adolescentes.
Os casos de maus-tratos chegaram a 38.986 registros em 2025, alta de 14,6% em relação ao ano anterior e de 106,1% na comparação com 2021. Mais da metade das vítimas (59,1%) tinha entre zero e nove anos.
Os registros de abandono de incapaz também aumentaram, alcançando 14.815 ocorrências, crescimento de 18,5%. Já os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra vítimas de até 17 anos subiram 5,5%, passando de 20.911 para 21.811.
Para os pesquisadores, os dados mostram que, apesar dos avanços na proteção garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ainda persiste a naturalização da violência como forma de disciplina no ambiente familiar, reforçando a necessidade de políticas públicas de prevenção e fortalecimento da rede de proteção à infância e à adolescência.








