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Cientistas ajustam Relógio do Juízo Final e mundo chega ao ponto mais próximo do colapso

Indicador simbólico passa a marcar 85 segundos para a meia-noite alerta para riscos nucleares, guerras, desinformação e avanço descontrolado da tecnologia

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Reprodução

Cientistas responsáveis pelo chamado Relógio do Juízo Final decidiram, nesta terça-feira (27), aproximar ainda mais o ponteiro simbólico da meia-noite — referência teórica para a aniquilação da humanidade. Pela primeira vez desde a criação do indicador, ele passou a marcar 85 segundos para o fim, quatro segundos a menos do que no ano passado. As informações são do Boletim dos Cientistas Atômicos.

O ajuste reflete, segundo a organização, um cenário global cada vez mais instável, marcado pelo comportamento agressivo de potências nucleares como Rússia, Estados Unidos e China, pelo enfraquecimento de acordos de controle de armas e pela escalada de conflitos armados em diferentes regiões do planeta.

Criado em 1947, no início da Guerra Fria, o Relógio do Juízo Final tem como objetivo alertar a sociedade sobre ameaças existenciais à humanidade, inicialmente ligadas ao risco nuclear, mas que hoje também incluem mudanças climáticas, desinformação e o uso irresponsável de novas tecnologias.

Conflitos armados e tecnologia ampliam riscos globais

Ao justificar a decisão, os cientistas citaram a guerra na Ucrânia, o conflito no Oriente Médio e o avanço acelerado da inteligência artificial sem mecanismos eficazes de governança global. Esta foi a terceira vez, nos últimos quatro anos, que o relógio foi ajustado para mais perto da meia-noite.

O anúncio contou com a participação da jornalista Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2021, que alertou para o papel da desinformação no agravamento das crises globais.

“Estamos vivendo um apocalipse da informação — a crise por trás de todas as crises — impulsionado por uma tecnologia extrativista e predatória que espalha mentiras mais rápido do que fatos e lucra com a nossa divisão”, afirmou.

Fundado em 1945 por cientistas como Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer, o Boletim dos Cientistas Atômicos surgiu no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, quando o mundo passou a conviver com o poder destrutivo das armas nucleares.

Risco nuclear é considerado “inaceitavelmente alto”

Em entrevista à Reuters, a especialista em política nuclear Alexandra Bell, presidente e CEO do Boletim, afirmou que o avanço do relógio reflete uma falha generalizada de liderança global.

“É claro que o Relógio do Juízo Final se refere a riscos globais, e o que temos visto é uma falha global de liderança”, disse.

Segundo Bell, tendências como o neoimperialismo e modelos autoritários de governança contribuem diretamente para o agravamento do cenário. Ela ressaltou que, do ponto de vista nuclear, 2025 não apresentou sinais positivos, classificando o risco de uso dessas armas como “insustentavelmente e inaceitavelmente alto”.

A especialista alertou ainda para o enfraquecimento de estruturas diplomáticas históricas, o retorno da ameaça de testes nucleares explosivos e o aumento das preocupações com a proliferação. Atualmente, três operações militares relevantes ocorrem sob a sombra da possibilidade de escalada nuclear.

Tratados sob ameaça e tensões em várias regiões

O Novo Tratado Start, último grande acordo de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, expira em 5 de fevereiro. O pacto limita a 1.550 o número de ogivas nucleares implantadas por cada país. Em setembro, o presidente russo Vladimir Putin sugeriu a prorrogação do tratado por mais um ano, mas não houve resposta formal do então presidente norte-americano Donald Trump.

Trump decidiu retomar testes de armas nucleares

Além disso, Trump determinou em outubro a retomada dos preparativos para testes de armas nucleares pelos EUA, interrompidos há mais de três décadas. Desde o fim da Guerra Fria, apenas a Coreia do Norte realizou testes nucleares explosivos, o mais recente em 2017.

Bell também destacou como fatores de alerta os confrontos entre Índia e Paquistão, as tensões na Península Coreana, as ameaças da China contra Taiwan e o aumento da instabilidade no Hemisfério Ocidental desde o retorno de Trump à Presidência dos Estados Unidos.

“A Rússia, a China, os Estados Unidos e outros grandes países tornaram-se cada vez mais agressivos e nacionalistas”, afirmou.

Para os cientistas, a combinação de rivalidades geopolíticas, fragilidade diplomática, conflitos armados e uso irresponsável da tecnologia empurra a humanidade para um momento considerado o mais perigoso desde o início da era nuclear.