A crise climática deixou de ser uma previsão para o futuro e se tornou um diagnóstico médico presente nos consultórios brasileiros. Enquanto o planeta registra seus anos mais quentes, uma epidemia silenciosa de doenças respiratórias crônicas avança sobre a população, pressionando um sistema público de saúde que ainda engatinha na adaptação aos eventos extremos.
O “coquetel” invisível: Poluição e Ozônio
A relação entre o aquecimento global e o pulmão humano é direta e letal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição atmosférica já responde por 43% das mortes por Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e 29% dos óbitos por câncer de pulmão.
“Quando olhamos para o horizonte e vemos aquela faixa cinza, estamos respirando isso”, alerta a pneumologista Danielle Bedin, embaixadora do Movimento Médicos pelo Clima. O cenário piora nas secas, quando as queimadas liberam partículas finas (PM2,5) que penetram profundamente na corrente sanguínea. Além disso, o calor intenso favorece a criação do ozônio troposférico, um poluente que “irrita” as vias aéreas, desencadeando crises severas em quem já possui bronquite ou asma.
A conta do calor: +1°C = +4% de mortalidade
O impacto não é apenas qualitativo, mas estatístico. Um estudo da revista científica eBioMedicine (do grupo The Lancet) revela que o risco de morte por DPOC sobe 4% a cada elevação de 1°C em cenários de calor extremo. Outra pesquisa, publicada na European Respiratory Review, aponta que ondas de calor aumentam em 25% as visitas a emergências por crises asmáticas.
Mas não é só o calor que mata. “As chuvas intensas trazem enchentes e, com elas, a proliferação de fungos que causam infecções graves em pacientes crônicos”, explica a médica Evangelina Araújo, fundadora do Instituto Ar. “Não falta ciência, falta que isso se traduza em prática pública.”
Infância sob fumaça e desigualdade geográfica
A vulnerabilidade tem rosto e endereço. Na Amazônia, pesquisadores da Fiocruz Piauí identificaram que crianças expostas à fumaça das queimadas apresentam redução da capacidade pulmonar, mesmo sem histórico de asma.
A desigualdade no acesso ao diagnóstico agrava o quadro. Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, relata casos dramáticos: “Temos famílias que vêm do interior do Pará para São Paulo porque era mais fácil chegar aqui do que em Belém para tratar uma alergia grave”.
O desafio da adaptação: O SUS está pronto?
Apesar do lançamento do plano Adapta SUS pelo governo federal em 2025, com metas até 2035, a percepção técnica é de que o Brasil está atrasado. Atualmente, apenas o Rio de Janeiro possui um sistema integrado de alerta entre órgãos ambientais e de saúde.
Os principais gargalos identificados por especialistas são:
- Falta de formação: Médicos nem sempre associam a piora do paciente à exposição climática no trabalho ou moradia.
- Comunicação falha: A ausência de alertas em tempo real impede que hospitais se preparem para picos de demanda após eventos climáticos.
- Investimento: A verba ainda é focada em mitigar danos (reduzir emissões) e pouco em adaptar os hospitais para as novas doenças que já chegaram.
“Cabe ao profissional de saúde entender que o clima está mudando a doença de base do paciente”, conclui Danielle Bedin. Sem uma reorganização rápida, o sistema de saúde corre o risco de entrar em colapso respiratório junto com seus pacientes.






