Ao explicar as motivações do ataque militar americano à Venezuela e a captura do presidente Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou claro que o petróleo está no centro da estratégia. Em pronunciamento à imprensa, ele afirmou que grandes petrolíferas americanas voltarão a atuar no país para recuperar a produção e explorar as reservas venezuelanas.
“Nossas grandes petrolíferas, as maiores de qualquer lugar no mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar infraestrutura horrivelmente quebrada, a infraestrutura do petróleo, e começar a fazer dinheiro para o país”, disse Trump durante coletiva em Mar-a-Lago.
As declarações reforçaram o interesse direto de Washington na maior riqueza venezuelana. Embora hoje responda por menos de 1% da produção mundial de petróleo, a Venezuela concentra as maiores reservas provadas do planeta, cerca de 220 bilhões de barris, o equivalente a 17% do total global.
O petróleo como objetivo central
Atualmente, a Venezuela está sob embargo dos Estados Unidos e apenas uma empresa americana, a Chevron, mantém operações no país por meio de autorização especial.
No passado, porém, a relação foi muito mais profunda. Antes da nacionalização promovida pelo governo de Hugo Chávez, no início dos anos 2000, a Venezuela chegou a ser o maior fornecedor de petróleo dos EUA.
Trump fez referência indireta a esse período ao comentar o que considera uma perda de ativos americanos no país.
“Eles falam em ‘nosso petróleo’. [Mas] nós construímos toda aquela indústria lá, e eles só tiraram de nós como se fôssemos nada, e tivemos um presidente que decidiu não fazer nada. Fizemos algo sobre isso. Tarde, mas fizemos”, afirmou.
Dificuldades para uma retomada rápida
Apesar do discurso político, especialistas veem obstáculos significativos para uma retomada acelerada da produção venezuelana por empresas americanas. O país enfrenta instabilidade institucional, intervenção militar estrangeira e forte convulsão social, fatores que elevam o risco para investimentos de longo prazo.
Além disso, o cenário geopolítico se tornou mais complexo com a presença da China, que nos últimos anos se tornou o principal comprador do petróleo venezuelano após o endurecimento das sanções americanas. A rivalidade entre Washington e Pequim surge, assim, como uma variável central para o futuro do setor energético no país.
“Trump não manda nas empresas americanas. Quem vai decidir colocar dinheiro num país sob intervenção militar estrangeira, convulsionado? Elas vão querer se posicionar de forma concreta e massiva no país? É tudo muito instável”, avaliou o professor do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida.
China, América Latina e reflexos no Brasil
Na avaliação de especialistas, a intervenção altera o equilíbrio geopolítico regional. A China emprestou bilhões de dólares à Venezuela ao longo dos últimos anos, em troca de petróleo, e sua reação ao avanço americano ainda é uma incógnita com potencial de impacto em toda a América Latina.
“Qual vai ser a reação da China? Ela é um grande investidor estrangeiro no Brasil no agro, no setor de energia. Essa rivalidade entre China e EUA, que parecia distante do contexto da América Latina, chegou aqui. A participação da China na América Latina é muito grande. Será que os chineses continuam investindo?”, questiona Almeida.
Para ele, o papel do Brasil como potência regional também tende a ser afetado.
“As eleições no Brasil vão ser impactadas. A América Latina não vai ser a mesma após essa intervenção. Veja Javier Milei, na Argentina, com apoio aberto e eufórico ao ataque americano. É um contexto geopolítico muito complexo”, disse.
Reservas gigantes, produção limitada
Apesar do potencial, a Venezuela produz hoje cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia. Para comparação, o Brasil produz cerca de 5 milhões, os Estados Unidos 13 milhões e a Arábia Saudita 12 milhões. O petróleo venezuelano é pesado, de extração mais complexa, mas historicamente as refinarias americanas foram adaptadas para processá-lo, assim como as chinesas.
Claudio Pinho, advogado especialista em petróleo e professor da universidade Mackenzie Rio, lembra que há 15 anos cerca de 70% do petróleo consumido nos EUA vinha da Venezuela, antes da expropriação dos ativos estrangeiros.
“Há um sem-número de indenizações pleiteadas pelas empresas contra o regime de Maduro. Elas não vão se instalar no marco zero. Vão esperar até que o controle da regulamentação e da legislação esteja efetivamente nas mãos dos americanos. Se isso vai durar uma semana, um mês ou mais, não sabemos”, afirmou.
Segundo Pinho, a Venezuela passou mais de uma década sem investir em novas explorações, limitando-se a campos já existentes.
“Ao deixar de ser fornecedor dos Estados Unidos, a Venezuela diminuiu seu papel no cenário mundial”, disse.
Preço do petróleo e efeitos de curto prazo
No mercado internacional, a expectativa é de impacto limitado nos preços. A avaliação é de que o barril possa subir entre US$ 2 e US$ 3 nos próximos dias, reagindo à instabilidade, mas sem disparadas mais fortes.
“Não tem fundamento no mercado de petróleo que justifique uma alta expressiva. Há muito estoque na China e nos EUA. Pode haver um repique, mas não volta a US$ 80 ou US$ 90”, avaliou Almeida.
Com o petróleo girando em torno de US$ 60 nos últimos meses, mesmo um eventual aumento da produção venezuelana para 2 milhões de barris por dia, em alguns anos, não alteraria significativamente o mercado global.
“A Venezuela não define sozinha o preço. O efeito dessa intervenção é muito mais especulativo, com redução temporária da oferta, do que estrutural”, concluiu.






