O supervisor Anderson Aguiar do Prado e a brigadista Emellyn Silva Aguiar, que morreram no incêndio no Shopping Tijuca, na Zona Norte do Rio, na última sexta-feira, foram os responsáveis por uma vistoria que identificou diversos riscos na loja Bell’Art, localizada no subsolo, onde o fogo começou, no dia 2. A constatação ocorreu seis dias antes do incêndio e apontava falhas que, segundo os profissionais, aumentavam o risco de ocorrência de fogo. Dois dias depois, pela manhã, a direção do shopping alertou formalmente a Bell’Art sobre a situação e a necessidade de “solução imediata” diante dos riscos.
O GLOBO teve acesso ao documento, que está com a Polícia Civil, responsável pela investigação do caso. Com fotos e descrições detalhadas, o relatório alertava para a presença de materiais combustíveis em áreas técnicas, detectores de incêndio inoperantes e produtos estocados acima da altura permitida dos bicos do sistema de sprinklers, utilizado no primeiro combate às chamas.
A vistoria feita por Anderson e Emellyn ocorreu no dia 27 de dezembro do ano passado. Anderson era ex-brigadista e funcionário do shopping. Ele foi promovido a supervisor de mall. Já Emellyn era uma brigadista terceirizada.
No documento, que leva o nome deles no cabeçalho, foram anexadas fotos de produtos entulhados, fiação exposta e presa com fita isolante, além de detector de fumaça desmontado e o uso de uma extensão com três tomadas.

A reportagem enviou questionamentos ao Shopping Tijuca sobre os trâmites e os prazos adotados após a notificação de um lojista, quando qualquer irregularidade é identificada durante as vistorias rotineiras.
Em nota, o shopping informou que as correções apontadas eram de natureza operacional e passíveis de rápida implementação pelo lojista.
“Não cabe ao Shopping antecipar conclusões sobre as causas do incêndio ou sobre sua propagação, razão pela qual esse e outros documentos e informações relevantes estão sendo integralmente compartilhados com as autoridades responsáveis pela investigação”, diz a nota.
Relatório
Em um trecho do relatório, os profissionais apontaram que as casas de máquinas estavam sendo usadas como estoque e locais de armazenamento de produtos, que ficaram “abarrotados de mercadorias”.
Em destaque em letras vermelhas, os funcionários também registraram que todos os detectores de incêndio do piso superior da loja estavam “inoperantes” e que os problemas “potencializavam os riscos de incêndio”.
“As casas de máquinas inspecionadas estão servindo como estoques, e os locais de armazenamento de produtos estão abarrotados de mercadorias. Essas ações potencializam os riscos de incêndio, uma vez que todos os detectores do piso superior estão inoperantes e os materiais estocados, além de desorganizados, estão acima dos chuveiros automáticos. A carga de incêndio está sendo intensificada, visto que esses espaços não foram estabelecidos para servir de armazenamento de produtos e, em alguns desses locais, não há chuveiros automáticos e as sinalizações estão obstruídas”, diz um trecho do relatório.
O documento foi entregue aos responsáveis pela Bell’Art após a vistoria. Dois dias depois, em 29 de dezembro, os funcionários retornaram à loja e constataram que os problemas ainda não haviam sido resolvidos. Diante disso, um funcionário da gerência do shopping enviou um e-mail a um dos sócios da do estabelecimento solicitando providências para solucionar as falhas de forma “imediata”, “vide o risco”.
Três dias após o envio do e-mail, a loja pegou fogo. O incêndio começou no início da noite, e as causas ainda são desconhecidas.
Veja a nota do shopping
O Shopping está em estreita colaboração com todas as autoridades, colocando-se à disposição para contribuir com as investigações e fornecer toda a documentação e informações necessárias à apuração das causas do incêndio.
O relatório em questão foi elaborado no dia 27 de dezembro, quando a Bell’Art tomou ciência das orientações, e uma segunda notificação foi enviada aos proprietários dois dias depois. As correções apontadas eram de natureza operacional e passíveis de rápida implementação pelo lojista. Não cabe ao Shopping antecipar conclusões sobre as causas do incêndio ou sobre sua propagação, razão pela qual esse e outros documentos e informações relevantes estão sendo integralmente compartilhados com as autoridades responsáveis pela investigação.
Sobre o incêndio, em nota, o Shopping Tijuca informou que todos os protocolos de emergência foram cumpridos e que a loja foi evacuada em cinco minutos, com os primeiros combates ao fogo já em andamento pela brigada.






