Do Chile à Índia, passando por França, Espanha e Albânia: jovens têm ocupado as ruas em protestos por educação, moradia, emprego e contra a corrupção.
Apesar das pautas e dos contextos políticos distintos, especialistas ouvidos pelo g1 destacam que essas mobilizações compartilham duas características: forte presença da geração Z e o uso das redes sociais como ferramenta de mobilização.
A geração Z é formada por pessoas nascidas entre o final da década de 1990 e o início da década de 2010.
Segundo Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), plataformas como TikTok e Instagram, além de canais fechados como Telegram e WhatsApp, servem como catalisadores instantâneos das reivindicações populares, especialmente entre os integrantes da geração Z.
Segundo ela, os jovens acompanham em tempo real imagens de protestos em outros países e adotam repertórios semelhantes de ação direta. “Questões orçamentárias na educação de países como França, Chile e Argentina, ou a crise da moradia na Espanha e os escândalos nos vestibulares na Índia, geram uma identificação geracional imediata”, explica Bressan.
França: jovens documentam violência policial
Um exemplo recente ocorre na França, onde imagens das manifestações estudantis contribuíram para ampliar a mobilização. Os próprios jovens também passaram a documentar as condições das escolas e a atuação das forças de segurança.
Os protestos franceses começaram em 17 de setembro, com reivindicações por melhorias na educação pública e críticas à falta de professores e à infraestrutura das escolas. Em 13 de outubro, mais de 160 mil pessoas participaram de manifestações, segundo o Ministério do Interior.
Na última sexta-feira (16), a violência policial se tornou um dos principais focos da crise, após denúncias de ferimentos graves em adolescentes durante a repressão aos atos.
Mais de 6,7 mil menores haviam sido levados à custódia policial desde o início das mobilizações, e 36 investigações sobre possíveis excessos estavam em andamento, segundo o jornal francês Le Monde.
O governo anunciou a contratação de professores substitutos, mas os estudantes consideram as medidas insuficientes. Uma nova jornada nacional de protestos está prevista para este sábado (17).
No início do mês, a Espanha também viveu uma onda de protestos que contaram com presença massiva da geração Z. Os atos no país foram motivados pela crise habitacional, e tiveram como estopim o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos. A idosa morreu dias depois, gerando mais mobilizações.
Memes e ironia como ferramenta de mobilização
A professora Regiane Bressan afirma que o humor, a ironia e os memes também se tornaram ferramentas de mobilização da geração Z. É o caso de iniciativas como o movimento das Baratas, na Índia.
A Cockroach Janta Party surgiu em maio de 2026, liderada por vestibulandos, universitários e candidatos a concursos públicos que protestavam contra vazamentos em provas de acesso ao ensino superior e denúncias de corrupção.
A mobilização ganhou força nas redes sociais e levou à renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, em julho. Nesta sexta-feira (16), os manifestantes voltaram às ruas de Nova Délhi para pedir a renúncia do chefe da Comissão Eleitoral, Gyanesh Kumar.
O grupo contesta uma revisão dos cadastros eleitorais que excluiu mais de 130 milhões de nomes das listas de votação e acusa as autoridades de favorecer o partido do primeiro-ministro Narendra Modi. A polícia deteve lideranças antes dos atos, que também ocorreram em outras cidades indianas.
Os integrantes adotaram a imagem de baratas, em referência a insultos usados contra jovens desempregados, e passaram a usar memes, fantasias e sátiras para criticar políticos e instituições. A estratégia ajudou a popularizar a mobilização nas redes sociais e a atrair jovens que não se identificam com partidos tradicionais.
Apesar do confronto direto com os governos estabelecidos e da organização de movimentos populares, a onda de manifestações deste ano não se baseia em uma organização partidária nem segue uma orientação ideológica coesa ou unificada, segundo Bressan.
Pelo contrário, as mobilizações se voltam contra governos de diferentes matrizes políticas.
Na Albânia, os protestos começaram com reivindicações por melhorias na educação pública e se transformaram em um movimento contra o governo do primeiro-ministro Edi Rama, que se identifica como socialista e enfrenta pedidos de renúncia.
Os manifestantes denunciam a corrupção, as condições precárias das universidades, os custos elevados do ensino superior, a falta de apoio financeiro e as poucas oportunidades de emprego após a formatura.
Eles também criticam um projeto de resort de luxo na costa sul do país, ligado a Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A proposta prevê a construção de um complexo turístico em uma área costeira preservada e enfrenta questionamentos judiciais.
Os atos, que vinham ocorrendo de forma pacífica havia meses, se tornaram violentos na terça-feira (13). Em Tirana, manifestantes atiraram pedras contra policiais, depredaram estabelecimentos e incendiaram um prédio do governo e agências bancárias.
As forças de segurança responderam com gás lacrimogêneo e jatos d’água. Os protestos também chegaram a outras cidades, como Elbasan, Shkodra, Lezha e Korça.
‘Nem um peso a menos’ no Chile
Já no Chile, governado pelo direitista José Antonio Kast, organizações estudantis convocaram mobilizações contra cortes e medidas relacionadas à educação pública.
Em 1º de outubro, mais de 20 mil pessoas participaram de uma marcha convocada pela Confederação de Estudantes do Chile (Confech), sob o lema “Nem um peso a menos para a educação”. A mobilização ocorreu após o anúncio do orçamento para 2027 e reuniu estudantes, professores, sindicatos e outras organizações. Ao menos 31 pessoas foram detidas, segundo o jornal El País.
Na segunda-feira (12), uma nova manifestação reuniu representantes de povos indígenas, incluindo comunidades mapuches, que protestaram contra a colonização espanhola e reivindicaram direitos territoriais e a preservação de suas línguas ancestrais. A marcha também terminou em confrontos com as forças de segurança.
A tensão deve continuar neste domingo (18), quando estão previstas mobilizações para marcar o sétimo aniversário do chamado estallido social, onda de protestos iniciada em outubro de 2019 contra a desigualdade social e o custo de vida.
O governo informou que não há marchas autorizadas para a data e afirmou que pretende responsabilizar quem provocar danos ao patrimônio público.
Nepal: história nas ruas
O ano de 2026 deu continuidade aos protestos da geração Z observados em países como Nepal e Madagascar no ano anterior. Em ambos os casos, a mobilização começou com publicações, vídeos virais e denúncias compartilhadas que, em pouco tempo, se transformaram em passeatas.
O movimento levou a manifestações que chegaram a reunir dezenas de milhares de pessoas. Em Katmandu, a capital, cerca de 20 mil a 25 mil manifestantes estavam nas ruas em 8 de setembro de 2025, segundo estimativas citadas pela imprensa local.
A resposta do governo aos protestos foi marcada por uma repressão policial que deixou dezenas de mortos. Ao menos 76 pessoas morreram e mais de 2 mil ficaram feridas ao longo de seis dias, segundo a Anistia Internacional.
O país também registrou incêndios e ataques a prédios públicos, incluindo o Parlamento.
O primeiro-ministro K. P. Sharma Oli renunciou. A crise levou à formação de um governo interino e à convocação de eleições antecipadas, realizadas em março de 2026. O Partido Nacional Independente, liderado pelo ex-prefeito de Katmandu Balendra Shah, venceu a votação e conquistou a maioria parlamentar. Shah assumiu o cargo de primeiro-ministro em 27 de março, em uma derrota histórica dos partidos tradicionais.
Os movimentos estudantis das décadas de 1960 e 1970, como as mobilizações de Maio de 1968 na França e os protestos contra a ditadura militar no Brasil, estavam fortemente associados às universidades e às organizações estudantis.








