A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada na última quarta-feira (25), acendeu um alerta vermelho sobre a saúde mental da juventude brasileira. Os dados revelam um abismo de gênero: as adolescentes, que somam cerca de 6,2 milhões de jovens no país, apresentam indicadores de sofrimento emocional, distorção de imagem corporal e exposição à violência significativamente superiores aos dos meninos.
O levantamento aponta que 41% das meninas relataram tristeza constante ou frequente nos últimos 30 dias — um índice quase 2,5 vezes maior que o registrado entre o público masculino (16,7%). A crise de saúde mental se desdobra em números alarmantes de ideação de autolesão: 43,4% delas admitiram vontade de se machucar de propósito no último ano.
O peso dos padrões e a ‘cultura do desamparo’
Para especialistas, os números não são frutos de dramas individuais, mas reflexos de pressões estruturais. Gabriela Mora, do UNICEF no Brasil, destaca que o cenário é moldado por padrões estéticos inalcançáveis e violência de gênero.
A insatisfação com o próprio corpo atinge 36,1% das adolescentes, o dobro do registrado entre os meninos. Enquanto eles buscam ganhar massa, elas lutam para emagrecer: 21% se percebem como “gordas”, muitas vezes carregando uma visão distorcida da própria imagem sob a influência de redes sociais e assédio online.
Violência e a barreira da Pobreza Menstrual
A vulnerabilidade física também é uma marca da desigualdade. A PeNSE 2024 revela que:
- 26% das meninas sofreram algum tipo de assédio sexual (toques ou exposição contra a vontade).
- 11,7% relataram terem sido forçadas a manter relações sexuais.
- 30,1% são vítimas recorrentes de bullying escolar.
Pela primeira vez, a pesquisa mediu a pobreza menstrual no Brasil, revelando que 15% das estudantes faltaram à escola ao menos um dia no último ano por não terem acesso a absorventes ou condições básicas de higiene, evidenciando como a biologia feminina ainda é fator de exclusão escolar.
O papel da escola e da família
A PeNSE reforça que a escola deve ser mais do que um local de ensino; precisa ser uma rede de proteção. Sinais como isolamento, irritabilidade excessiva (relatada por 58% das jovens) e mudanças bruscas de humor devem ser acolhidos sem julgamento.
“É uma questão social que precisa ser enfrentada para que a adolescência seja vivenciada de forma saudável”, afirma Gabriela Mora. O desafio agora é transformar esses dados em políticas públicas que garantam espaços de escuta e dignidade para as jovens brasileiras.






