Uma mãe que trabalha, cuida dos filhos e administra sozinha a rotina da casa. Irmãos que dividem o mesmo endereço e compartilham os cuidados com as crianças. Avós que assumem a criação dos netos. Casas onde convivem três ou até quatro gerações. As diferentes formas de organização familiar encontradas em dois territórios da Baixada Fluminense são o ponto de partida de uma pesquisa realizada com participantes do Projeto Cultura na Faixa.
O levantamento analisou informações das fichas de inscrição de 294 participantes, sendo 187 do Núcleo Geneciano, em Nova Iguaçu, e 107 do Ana Clara, em Duque de Caxias. Os dados mostram diferenças entre os dois territórios, mas também uma característica em comum: a predominância de famílias vivendo com renda de até dois salários mínimos.
O perfil monoparental em Caxias
O dado que mais chama atenção está no Núcleo Ana Clara, em Duque de Caxias. Entre as 107 famílias analisadas, 54 (50,5%) apresentam configuração monoparental. Foram identificadas 49 mães solo que moram sozinhas com seus filhos (45,8% do total de famílias do núcleo), dois pais solo e três avós que criam os netos sozinhas.
A análise da renda dimensiona as condições em que essas mulheres exercem o cuidado: das 49 mães solo de Ana Clara, 37 vivem com renda familiar de até um salário mínimo (sendo 14 com até meio salário mínimo e 23 entre meio e um salário). Outras oito declararam renda entre um e dois salários mínimos. Além disso, 38 dessas mães recebem o Bolsa Família.
O estudo ressalta que a monoparentalidade não significa, por si só, vulnerabilidade social, mas a associação entre baixa renda, informalidade do trabalho, gênero e raça amplia a exposição dessas famílias à insegurança econômica.
Em Nova Iguaçu, a força da família extensa
A cerca de 20 quilômetros dali, no Núcleo Geneciano, em Nova Iguaçu, a pesquisa encontrou uma dinâmica diferente. Entre os 187 participantes analisados, 21,3% pertencem a famílias monoparentais, enquanto 33,7% vivem em famílias compostas por pai/padrasto, mãe e filhos. Já a maior parcela (45%) está inserida em estruturas familiares plurais, com características de família extensa.
São lares onde avós, tios, irmãos, sobrinhos, pais e filhos compartilham a moradia e as responsabilidades do cuidado. O estudo identificou irmãos criando filhos juntos, crianças sob responsabilidade de tios e avós, além de sete casos de mulheres vivendo com idosos e crianças ao mesmo tempo — contexto associado ao conceito de “geração sanduíche”.
Em Geneciano, a renda também é um fator crítico: 96,2% das famílias recebem até dois salários mínimos (sendo a faixa entre meio e um salário a mais frequente, informada por 73 famílias) e 53% estão inscritas no Bolsa Família.
Redes de apoio e atuação territorial
As diferenças entre os dois núcleos mostram que compreender a periferia exige olhar para além do modelo familiar tradicional. Onde a renda é restrita, redes comunitárias, parentes, vizinhos e serviços públicos (como CRAS, escolas e postos de saúde) formam a estrutura essencial de apoio para o sustento e cuidado diário.
Mapear a realidade de quem está do outro lado das atividades permite direcionar melhor a atuação do Cultura na Faixa, projeto da ONG Se Essa Rua Fosse Minha (SER), realizado em convênio com a Transpetro. A pesquisa foi elaborada pela Assessoria de Pesquisa Social do projeto com base nos dados de inscrição coletados até maio de 2026.








