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Ocupação desordenada e baixa vacinação agravam surto de dengue no Amazonas

Especialista da Fiocruz alerta para impactos do desmatamento, da falta de saneamento e da baixa adesão à vacina

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Foto: Reprodução

“A ocupação desordenada das periferias nas comunidades amazônicas, combinada com o desmatamento e a falta de infraestrutura básica, tem exposto a população a vetores como o mosquito Aedes aegypti, agravando a transmissão de doenças como dengue e malária”, afirma Diego Xavier, coordenador do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz.

A declaração chama atenção para o impacto ambiental e social na saúde pública do Amazonas, onde até 30 de março de 2024, apenas 13,49% do público-alvo foi vacinado contra a dengue. O estado já registra 3.290 casos confirmados da doença.

Dados alarmantes da vacinação

Apesar da ampliação da campanha de vacinação para incluir crianças e adolescentes de até 14 anos, a adesão continua baixa. O estado recebeu 156,8 mil doses da vacina contra a dengue, mas apenas 82,4 mil primeiras doses foram aplicadas. Menos de 20 mil pessoas retornaram para a segunda dose, o que representa 35% do público elegível.

“O controle dessas doenças depende de medidas tecnológicas, do esforço das autoridades, e também do envolvimento ativo da população na eliminação dos criadouros e no uso adequado das medidas de proteção”, explica Xavier.

Propagação acelerada de arboviroses no Amazonas

Segundo o Informe Epidemiológico das Arboviroses no Amazonas, divulgado em fevereiro de 2024 pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Drª Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), entre 1º de janeiro e 9 de fevereiro, foram notificados 7.191 casos suspeitos de arboviroses no estado. Desses, 1.024 casos de dengue foram confirmados, além de quatro casos de Zika e 1.134 de febre Oropouche.

Xavier alerta que “a falta de saneamento, coleta de lixo e moradias adequadas agrava a situação, criando condições favoráveis para o aumento de doenças transmitidas por mosquitos”.

Manaus lidera os municípios com maior número de notificações, com 3.876 casos suspeitos de arboviroses, seguida por Tefé, Lábrea e Manacapuru. A ausência de casos de chikungunya até o momento também chamou a atenção das autoridades.

Estratégias para conter os surtos

As autoridades de saúde do estado têm buscado formas de conter o avanço das arboviroses, especialmente a dengue. Uma das principais iniciativas é a ampliação da campanha de vacinação para mais 10 municípios.

O governo do Amazonas investiu em tecnologias inovadoras, como o método Wolbachia, que envolve a liberação de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia, com o objetivo de reduzir a transmissão de dengue, zika e chikungunya.

Outro método empregado são as Estações Disseminadoras de Larvicida, instaladas em áreas de vulnerabilidade social, como as periferias de Manaus. Essas estações visam combater diretamente os criadouros do Aedes aegypti, mosquito transmissor dessas doenças.

Xavier faz outro alerta para outra questão “as condições ambientais da região, com alta umidade e temperaturas elevadas ao longo do ano, criam um ambiente propício para a reprodução de mosquitos”. Ele também frisa a importância do monitoramento contínuo e de estratégias como o uso de georreferenciamento para prever surtos.

O plano de ação do Ministério da Saúde

Em setembro de 2024, diante do aumento preocupante dos casos de arboviroses, o Ministério da Saúde anunciou um novo plano de ação para combater essas doenças no Brasil. O plano, que envolve a colaboração entre o governo federal, estados e municípios, visa não apenas a prevenção, mas também o fortalecimento da rede assistencial para atender os casos mais graves.

Com a estratégia de eliminação de criadouros, uso de armadilhas para o Aedes aegypti e a introdução de novas tecnologias, o plano tem como objetivo reduzir os impactos das arboviroses no país. No Amazonas, as medidas de controle vetorial também incluem o uso de larvicidas e a distribuição de mosquiteiros.

“A integração de tecnologias de georreferenciamento e análise de dados é fundamental para prever e mitigar surtos”, ressalta Xavier.

O governo espera que essas medidas possam frear a propagação das arboviroses, que já causaram 6,5 milhões de casos de dengue e 5,3 mil mortes no Brasil em 2024. No Amazonas, o cenário também é alarmante, com 8,3 mil casos confirmados de dengue e quatro mortes até o final de setembro.

Desafios na mobilização social

Embora o plano de ação tenha um papel muito importante no combate às arboviroses, Xavier reforça que a mobilização da população é indispensável. “Não basta que o governo implemente novas tecnologias ou distribua vacinas. O envolvimento da população, principalmente na eliminação de criadouros do mosquito, é essencial para frear a proliferação do Aedes aegypti”, alerta o especialista.

Nas áreas mais vulneráveis de Manaus, onde as condições de saneamento são precárias, o combate aos focos de mosquitos tem sido uma batalha constante. “As periferias urbanas, onde há acúmulo de lixo e água parada, são as mais afetadas. O desmatamento e a expansão desordenada dessas áreas agravam o problema”, explica Xavier.

O Ministério da Saúde também intensificou as campanhas de conscientização, visando informar a população sobre a importância de adotar medidas preventivas e participar ativamente das ações de controle vetorial. A comunicação com as comunidades será intensificada para garantir que todos colaborem nas iniciativas de prevenção, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade.

Reportagem de Raphaela Ortega