Levantamento realizado pela área de inteligência da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro demonstra uma curiosa e aparentemente contraditória constatação. Num período de seis anos – de 2020 a 2025 -, houve um aumento expressivo de 223% do número de fuzis apreendidos por policiais militares no estado, enquanto, no mesmo intervalo de tempo, os confrontos armados com criminosos registraram uma redução de 31,7%.
Em 2025, foram apreendidos 811 fuzis, um recorde absoluto na série histórica de apreensões dessas armas por policiais militares. Também no ano passado, ocorreram 2058 confrontos armados, 954 a menos do que em 2020. À primeira vista, essa constatação pode parecer estranha, porque as apreensões de fuzis ocorrem quase sempre durante operações policiais em comunidades, nas quais os criminosos negam-se a entregar suas armas e optam pelo confronto.
Contudo, ao analisar os dados produzidos pela Subsecretaria de Inteligência (SSI) da Corporação, o secretário da SEPM, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, encontra uma explicação bastante plausível para a aparente contradição do resultado do levantamento. “A partir dos últimos anos, investimos muito em tecnologia e treinamento da tropa. Por essa razão, não tenho dúvidas de que a redução do número de confrontos armados deriva de ações mais cirúrgicas e baseadas em informações de inteligência – afirma o secretário, referindo-se à aquisição de drones, câmeras capazes de registrar imagens noturnas, softwares sofisticados, entre outros equipamentos e programas de última geração.
CENÁRIO GEOGRÁFICO
Em relação aos locais com maior incidência de apreensões de fuzis, o levantamento da SSI não trouxe novidades. O 41º BPM (Irajá) e o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) continuam na liderança das unidades que mais apreendem fuzis.
A maior parte dessas armas de guerra continuam concentradas nas regiões sob responsabilidade dos Comandos de Policiamento de Área da Zona Oeste e parte da Zona Norte da capital (2º CPA) e da Baixada Fluminense (3º CPA). Em 2025, houve um aumento significativo de fuzis apreendidos na região do 1º CPA em função da megaoperação de 28 de outubro nos complexos do Alemão e da Penha, quando foram recolhidas 93 dessas armas de guerra.
Com base em levantamentos anteriores, é possível concluir que não houve mudanças em relação a outras três constatações verificadas no final de 2024. A primeira é de que mais de 50% dos fuzis apreendidos estavam em comunidades sob influência da facção Comando Vermelho. A segunda tendência tem sido observada nesta década: não chegam a 5% os fuzis fabricados pela indústria brasileira, significando que mais de 95% dos armamentos foram entregues aos criminosos via tráfico internacional de armas.
A terceira observação confirma uma tendência identificada desde 2024: é cada vez maior o número de fuzis traficados em peças separadas e montados por armeiros contratados por facções criminosas, os chamados fuzis “Frankenstein”. Dos 811 fuzis apreendidos em 2025, estima-se que 35% deles eram de modelos não identificados, ou seja, são montados com peças de diferentes procedências.
Para o secretário da SEPM, o grande número de fuzis apreendidos demonstra que esse armamento tem sido cada vez mais utilizado por organizações criminosas em disputas extremamente violentas por território. “A apreensão de fuzis é uma ação estratégica da Corporação que demonstra o empenho da nossa tropa. Temos o compromisso de intervir nestes confrontos para garantir a segurança da sociedade. Cada fuzil apreendido representa vidas que são salvas”, lembra o coronel Menezes.






