A ofensiva de grande escala conduzida pelos Estados Unidos contra alvos estratégicos na Venezuela também resultou na captura de Cilia Flores, esposa do presidente Nicolás Maduro.
Conhecida internamente como a “primeira-combatente”, Flores é apontada por aliados e adversários como uma das figuras mais poderosas do chavismo, com influência direta sobre decisões centrais do governo e liberdade para definir nomes na alta cúpula do regime.
Descrita por interlocutores como uma dirigente de personalidade forte, a primeira-dama foi detida durante ataques que atingiram Caracas e outras cidades venezuelanas ao longo da madrugada, em uma operação que expôs o coração político do governo chavista.
Do direito à linha de frente do poder
Cilia Adela Gavidia Flores de Maduro, de 66 anos, mantém uma longa trajetória ligada ao chavismo desde antes da chegada de Hugo Chávez ao poder. Advogada de formação, ela atuou na defesa de Chávez após a tentativa fracassada de golpe de Estado em 1992 e teve papel decisivo em sua libertação, em 1994, o que lhe garantiu prestígio dentro do movimento bolivariano.
Em 2002, durante a tentativa de golpe que afastou Chávez temporariamente do poder, Flores voltou a ter atuação destacada. À época, integrava o círculo mais restrito do líder venezuelano e participou das articulações políticas que sustentaram o retorno do presidente ao Palácio de Miraflores.
O núcleo duro do chavismo
Durante o auge da Revolução Bolivariana, Cilia Flores presidiu o Comando Político da Revolução e integrou o Comando Tático para a Revolução, o grupo mais fechado de conselheiros de Chávez.
Documentos e relatos daquele período indicam que, dias antes da tentativa de golpe de 2002, integrantes do núcleo discutiram inclusive o uso de paramilitares para defender o Palácio de Miraflores, cenário que acabou se confirmando.
Esse protagonismo consolidou a imagem de Flores como uma operadora política central, capaz de transitar entre decisões estratégicas e ações de bastidores com ampla autonomia.
Ascensão institucional e disciplina interna
Além da atuação política, Flores ocupou cargos-chave no Estado venezuelano. Foi Procuradora-Geral da República e, em 2006, tornou-se a primeira mulher a presidir a Assembleia Nacional, função que exerceu por cinco anos.
No comando do Legislativo, construiu reputação de dirigente implacável, impondo disciplina rígida ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e evitando deserções em momentos críticos para o governo.
Desde 2016, é deputada pela Assembleia Nacional pelo estado de Cojedes, sua terra natal, mantendo influência direta sobre o Parlamento mesmo após deixar a presidência da Casa.
Origens, polêmicas e acusações
Formada pela Universidade Santa María, em Caracas, Flores nunca pertenceu à elite intelectual do país. Maduro costumava destacá-la como uma mulher de origem humilde, criada em fazendas de chão batido e em bairros populares da capital. Segundo o discurso oficial, sua família teria sido alvo de perseguição policial devido ao apoio incondicional ao chavismo desde seus primeiros anos.
Ao longo da carreira, enfrentou acusações de nepotismo, relacionadas à suposta contratação de parentes em seu gabinete. Ela sempre negou irregularidades, afirmando ser alvo de campanhas de difamação promovidas por adversários políticos.
Casos familiares e desgaste internacional
O nome de Cilia Flores ganhou projeção internacional em 2015, quando seus sobrinhos Efraín Antonio Campo Flores e Francisco Flores de Freitas foram presos sob acusação de tráfico de drogas, ao tentar transportar cocaína para os Estados Unidos. O caso provocou constrangimento político ao governo venezuelano e ampliou as críticas ao círculo íntimo de Maduro.
Em outubro do ano passado, os dois foram libertados em uma troca de prisioneiros com os Estados Unidos, que incluiu a soltura de sete americanos detidos havia anos na Venezuela. O episódio reforçou o peso político e simbólico da primeira-dama dentro e fora do país.
A captura de Cilia Flores, ao lado de Nicolás Maduro, representa não apenas a queda de uma figura central do regime, mas também a exposição de um projeto de poder construído ao longo de décadas, sustentado por lealdade interna, controle institucional e confrontação permanente com o exterior.






