A segunda noite de desfiles da Série Ouro foi marcada por tensão e por um grave acidente envolvendo a Unidos de Maricá. A última alegoria da escola bateu contra a frisa do setor 12 e atingiu ao menos três pessoas. Uma das vítimas, integrante da equipe de apoio da escola, sofreu fratura grave na perna direita. O acidente mudou o clima na Sapucaí, que, até aquele momento, era de celebração, com desfiles de alto nível e arquibancadas lotadas. Um dos maiores destaques da noite foi o Império Serrano, com a presença ilustre de Conceição Evaristo, ovacionada pelo público.
Confira os detalhes sobre as escolas.
Unidos da Ponte: levou baile funk à Sapucaí
A Unidos da Ponte foi a última escola a entrar na Avenida. A agremiação viu o amanhecer enquanto atravessava o Sambódromo. A escola celebra as tradições dos bailes populares e do funk, mostrando como essas expressões são partes fundamentais da cultura negra e periférica no Rio de Janeiro. O enredo promove uma viagem que vai de ritmos históricos, como o maxixe, ao funk contemporâneo, conectando ancestralidade e presente. Após um esquenta que resgatou diversos clássicos do funk, como “Estrada da Posse”, o desfile começou com a comissão de frente apresentando os bailes negros e periféricos do Rio, como o funk e o charme.

Porto da Pedra: prostitua de 83 anos foi destaque da escola
Escola que celebra a força das prostitutas, a Unidos de Padre Miguel, sétima escola da Série Ouro a entrar na Sapucaí, teve como uma dos destaques uma profissional do sexo de 83 anos. Lourdes Barreto veio no último carro alegórico. Quem elegeu sua presença como o ponto alto da apresentação foi o próprio carnavalesco da agremiação, Mauro Quintaes. O carnavalesco acredita que o enredo encenado na Avenida tem potencial de mudar a visão da sociedade em relação às prostitutas. A comissão de frente reproduziu pontos de prostituição do Rio, como a Rua Vila Mimosa, um dos redutos mais antigos do país e mais emblemáticos da cidade.

União de Maricá: grave acidente com três feridos
Na corrida para não estourar o relógio, a União de Maricá, sexta escola da Série Ouro a desfilar neste sábado, sofreu um grave acidente na Sapucaí. A última alegoria da escola bateu contra a frisa do setor 12 e atingiu ao menos três pessoas.
Uma das vítimas, o profissional da equipe de apoio da escola Itamar de Oliveira, de 65 anos teve uma fratura exposta bilateral e lesão vascular. Ele foi transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar. Rodrigo de Oliveira Carvalho, de 40 anos, teve entorse no tornozelo direito e foi levado para o Hospital Miguel Couto. Ivan Simão Matias, de 56 anos, foi atropelado e teve lesões superficiais. Ele foi liberado no posto de atendimento.
Com a situação, algumas pessoas na dispersão e no setor 12 passaram mal e precisaram de atendimento no posto médico da Sapucaí. A 6ªDP está com a investigação do acidente.
Em nota, a União de Maricá informou que está acompanhando a situação, prestando todo o suporte necessário às vítimas, com representantes no Hospital Souza Aguiar.
A Liga RJ informou que está acompanhando de perto a situação da pessoa envolvida no incidente ocorrido durante o desfile da União de Maricá. “Reiteramos que, imediatamente após o ocorrido, os socorristas prestaram atendimento no local e realizaram a remoção para o hospital mais próximo, onde recebe os cuidados necessários”.
O clima, que era de confiança, mudou totalmente depois do acidente. Até aquele momento, o desfile estava cercado de imponência, iniciado com um show de drones. A escola entrou na Avenida sob uma queima de fogos que durou 13 minutos, um a mais que o Réveillon de Copacabana.
A agremiação desfilou com um tema que valoriza a joalheria afro-brasileira e os balangandãs, pequenos amuletos e adornos usados historicamente por mulheres negras como símbolos de fé, proteção, beleza e poder espiritual. A proposta, foi desenvolvida pelo carnavalesco Leandro Vieira — que, além do desfile da escola da Região Metropolitana, também é responsável pelo carnaval da Imperatriz Leopoldinese, agremiação do Grupo Especial.
Os carros lembravam oficinas e ateliês de joalheiros, além de alas que representavam tradições e saberes ancestrais. A narrativa de Leandro Vieira se mostrou uma celebração estética, histórica e política, evidenciando como a cultura material — como as joias — pode ser um veículo de afirmação de dignidade e criatividade.

Estácio de Sá: escola sofreu tensão na Sapucaí após dificuldade para entrada de carro alegórico
Quinta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, a Estácio de Sá enfrentou momentos de tensão na Sapucaí. De grandes dimensões, o último carro alegórico da escola teve dificuldade para entrar na Avenida, o que provocou apreensão no público e nos componentes. Quando a alegoria finalmente despontou ilesa, os foliões aplaudiram de pé nas arquibancadas do Setor 1 e gritaram em comemoração.
Passada a apreensão, a escola seguiu o desfile em grande estilo, com os componentes entoando o samba-enredo a plenos pulmões, especialmente o trecho “Macumba é macumba”, em exaltação às religiões de matriz africana. A Estácio conseguiu concluir a apresentação em 53 minutos, dentro do tempo limite de 55 minutos.

Império Serrano: Conceição Evaristo é reverenciada na Sapucaí e emociona público
Era 0h59 quando Conceição Evaristo se posicionou em seu lugar no carro abre-alas do Império Serrano, quarta escola a cruzar a Marquês de Sapucaí. Com a ajuda de um guincho, a escritora acomodou-se no trono confeccionado no segundo andar da alegoria. Cerca de 10 minutos depois, ao atravessar o setor 1, a homenageada da verde e branca de Madureira demonstrou toda a alegria e disposição que a acompanharam ao longo do desenvolvimento do enredo. Ficou de pé, cantou o samba com fervor e interagiu com o público, que a reverenciou.
Ao longo do percurso, Conceição Evaristo alternava entre emoção e euforia. Com a letra do samba-enredo na ponta da língua, cantava em direção ao público, acenava com as mãos e lançava beijos, esbanjando carisma.
O enredo inspirado na escrita e nas “escrevivências” (termômetro da experiência vivida) foi desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A escola transformou texto em imagem, unindo personagens literários e biografia da autora em diferentes carros e alas que exploraram sua trajetória.

Arranco do Engenho de Dentro: entre gargalhadas e resistência, a reverencia a mulher por trás do palhaço Xamego
Terceira escola a pisar na Avenida no segundo dia da Série Ouro, o Arranco do Engenho de Dentro desfilou com o enredo “A Gargalhada e o Xamego da Vida”, uma homenagem à trajetória de Maria Eliza Alves dos Reis, a mulher por trás do palhaço Xamego. A artista brilhou no circo em um tempo em que mulheres enfrentavam fortes barreiras de gênero e racismo para atuar na arte circense. O pioneirismo feminino também esteve presente em outros segmentos da escola, como no caso da mestre de bateria Laíssa.
A carnavalesca Annik Salmon desenvolveu um desfile que transformou a Sapucaí num picadeiro de circo, lembrando o papel do humor e da alegria como formas de resistência.

Em Cima da Hora: desfile marcado pela fé, força feminina e superação
A Em Cima da Hora colocou na avenida o enredo “Salve todas as Marias- Laroyê, Pombagiras!”, uma exaltação pombagiras — entidades femininas que representam força, independência, resistência e sensualidade no imaginário das religiões de matrizes africanas. O desfile misturou elementos místicos, cores vibrantes e a energia de um samba que celebra a vida dessas figuras que, historicamente, foram marginalizadas e estigmatizadas.
A escola buscou transmitir liberdade, coragem e a quebra de preconceitos, transformando a avenida em um espaço de festa e reflexão sobre identidade e espiritualidade.

Botafogo Samba Clube: homenagem a Burle Marx e aposta em virada artística
A Botafogo Samba Clube abriu a segunda noite de desfiles na Série Ouro com um enredo que homenageou o paisagista e artista Roberto Burle Marx, referência do modernismo e da botânica brasileira. A agremiação apostou no desfile após receber críticas sobre a forte ligação com o futebol.
Mesmo tendo sido fundada apenas em 2018, a escola vinha recebendo críticas por sempre apresentar enredos ligados ao futebol. Neste ano, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres são os responsáveis por uma mudança no estilo.
A escola levou para avenida um abre-alas inspirado em jardins abstratos e composições artísticas, refletindo o olhar e a riqueza cromática que marcaram a obra de Burle Marx.







