A dengue pode voltar a avançar de forma significativa no Brasil em 2026. Um estudo internacional estima que o país poderá registrar até 1,8 milhão de casos da doença no próximo ano, impulsionados pela combinação de calor intenso, chuvas frequentes e pela reintrodução do sorotipo 3 do vírus.
A projeção aponta maior impacto na Região Sudeste, especialmente no Rio de Janeiro, que já enfrentou uma epidemia histórica recentemente. Mesmo após a redução expressiva de casos em 2025, especialistas alertam que o vírus continua em circulação e encontra uma população amplamente suscetível.
A estimativa faz parte do projeto InfoDengue–Mosqlimate Dengue Challenge (IMDC), desenvolvido em parceria com a Fiocruz e a Fundação Getulio Vargas. O estudo cruza dados climáticos, densidade populacional e circulação viral para antecipar cenários de risco.
Rio pode voltar ao centro da epidemia
No estado do Rio de Janeiro, os registros caíram de mais de 300 mil casos prováveis em 2024 para cerca de 29,3 mil em 2025. Apesar da redução, o alerta permanece aceso.
Segundo o infectologista Alberto Chebabo, que atua nos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco, a ampla circulação viral e as dificuldades no controle do mosquito transmissor mantêm o risco elevado, principalmente em áreas densamente povoadas que não enfrentaram surtos recentes.
Um dos principais fatores de preocupação é a introdução do sorotipo dengue 3. Sem circular de forma relevante no Brasil há anos, ele encontra atualmente grande parte da população sem imunidade específica. Embora esteja mais concentrado em São Paulo, há potencial de disseminação para estados vizinhos, como Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Clima favorece avanço do Aedes aegypti
O cenário climático do Sudeste contribui para o avanço da doença. Temperaturas elevadas aceleram o ciclo de vida do mosquito transmissor, o Aedes aegypti, enquanto períodos chuvosos ampliam os criadouros.
A combinação entre vírus ativo e condições ambientais favoráveis cria um ambiente propício para o aumento de casos e amplia o risco de novas epidemias ao longo de 2026.
Especialistas reforçam que, mesmo com o avanço da vacinação, a principal estratégia de controle continua sendo a eliminação dos focos de água parada. Recipientes como pneus, vasos de plantas, caixas-d’água abertas, ralos descobertos, calhas entupidas e piscinas abandonadas são locais ideais para a reprodução do mosquito.
Prevenção individual e sinais de alerta
De acordo com médicos infectologistas, o mosquito precisa de quantidades mínimas de água limpa para se reproduzir — até mesmo uma tampinha de refrigerante pode se tornar um criadouro. Por isso, a mobilização coletiva é considerada essencial para reduzir o impacto da doença.
O uso de repelentes também é recomendado, principalmente os à base de icaridina, que oferecem proteção prolongada. Telas em portas e janelas funcionam como barreiras eficazes, enquanto o uso contínuo de inseticidas domésticos deve ser feito com cautela, especialmente em ambientes com idosos e crianças.
No campo clínico, os sintomas iniciais podem ser confundidos com outras viroses. Febre alta, dor de cabeça intensa, dor atrás dos olhos e dores musculares estão entre os sinais mais comuns. A ausência de sintomas respiratórios, como tosse e coriza, ajuda a diferenciar a dengue de gripes e resfriados.
Vacinação avança, mas não substitui cuidados
A fase mais crítica da doença costuma ocorrer quando a febre começa a ceder. Nesse momento, podem surgir sinais de alarme como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, tontura, fraqueza e sangramentos — sintomas que exigem atendimento médico imediato para evitar formas graves.
Atualmente, o Brasil conta com duas vacinas contra a dengue. A Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda, é aplicada em duas doses e está disponível tanto no Sistema Único de Saúde (SUS), para adolescentes de 10 a 14 anos, quanto na rede privada para pessoas de 4 a 60 anos.
Já a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, de dose única, começou a ser incorporada gradualmente ao SUS e ainda integra estudos de vacinação em massa em algumas cidades. A expectativa é ampliar a oferta conforme a capacidade de produção aumente, com prioridade inicial para a população acima de 50 anos.
Para especialistas, a vacinação representa um avanço importante, mas não elimina a necessidade de prevenção contínua. A estratégia para reduzir o impacto projetado para 2026 depende da combinação entre imunização, eliminação de criadouros e diagnóstico precoce.






